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Em todos as alternativas, verifica-se o uso de linguagem...

INSTRUÇÃO: Leia, com atenção, o texto a seguir para responder às questões propostas.


A desoras, desfeliz

1 Encenou-se, no Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, no feriado de 21 de abril, em forma de peça

teatral, uma celebração chamada “desenforcamento de Tiradentes”. Com advogado, promotor e júri popular,

refez-se o julgamento do herói da Inconfidência Mineira, tudo mais ou menos conforme o que registram os

autos de dois séculos atrás, mas com resultado inverso: no final o réu é inocentado. Ou seja, desenforcado.

5--O melhor de tudo foi o título. “Desenforcamento” entra para o rol de mágicas palavras que o ‘des’ inicial

permite criar, invertendo significados e instituindo um mundo às avessas.

Em Apesar de Você, sua música contra a ditadura, Chico Buarque pediu: “Você, que inventou a

tristeza, ora tenha a fineza de desinventar”. Talvez já se invocasse o “desinventar” antes; depois, invocou-se

mais ainda. Até foi acolhido no dicionário digital Aulete, que lhe dá o significado de “retroceder, retroagir

10--na ação de inventar”, e oferece como exemplo um trecho do poeta Manoel de Barros: “É preciso desinventar

os objetos. O pente, por exemplo. É preciso dar ao pente a função de não pentear. Até que ele fique à

disposição de ser uma begônia”.

Numa de suas malucas aventuras no País das Maravilhas, Alice comemora seu unbirthday, como

escreveu o autor do livro, o inglês Lewis Carroll. Unbirthday foi traduzida em português para

15--“desaniversário”, bela palavra para significar um belíssimo não evento. E, por falar em belo, a escritora Ana

Miranda deu o título de Desmundo ao romance em que narra a sina de uma órfã portuguesa enviada à força

ao Brasil da época do Descobrimento para servir de esposa a um dos desbravadores da terra. “Desmundo” é

mais que fim do mundo; é o mundo ao avesso.

É o que aguarda, no romance, a inocente Oribela. Há bons exemplos mais antigos. No livro

20--Roteiro de Macunaíma, de 1950, o crítico M. Cavalcanti Proença escreveu que o personagem de Mário de

Andrade resumia as “desvirtudes nacionais”. O próprio Mário de Andrade engendrou, por sua vez, outro

oportuno ‘des’ ao lamentar, num poema (Louvação da Tarde), a “pátria tão despatriada”.

Desvirtudes nacionais e despatriamentos da pátria continuam em cartaz, 87 anos depois da

publicação de Macunaíma e setenta depois da morte de Mário de Andrade, completados neste ano, mas não

25--é disso que se trata aqui – por que raios, ó insistente leitor, o colunista teria sempre de afundar no

mar de nossas misérias públicas? Refugiemo-nos nas palavras. O tema de hoje são as que portam o prefixo

‘des’, começando com as inventadas, mas não se esgotando nelas. O exímio criador/recolhedor de palavras

que foi Guimarães Rosa espalhou por suas obras, entre muitas outras, “desamigo”, “desendoidecer”,

“desdormido”, “desexistir”, “destriste”, “desfeliz”, “desviver”, “desfalar”.

30 No precioso livro O Léxico de Guimarães Rosa, da professora Nice Sant’Anna Martins, registram-se

exatas 230 palavras com ‘des’, sinal de que o ‘des’ é uma tentação irresistível para quem gosta de brincar

com as possibilidades do idioma. Até “desmim” Guimarães Rosa inventou. “Querer mil gritar, e não pude,

desmim de mim mesmo, me tonteava, numas ânsias”, diz Riobaldo, no Grande Sertão: Veredas.

O ‘des’ traz em si a atração anarquista de pôr o mundo de cabeça para baixo. Mesmo as palavras em

35--‘des’ perfeitamente acomodadas à língua, e acolhidas nos dicionários há muitos anos, nos chegam com novo

viço quando nos detemos a examiná-las. A uma família melancólica pertencem “desamor”, “desventura”,

“desencanto” e a fatal “desespero”, ao inverter o alto significado moral de “amor”, “ventura”, “encanto” e

“esperança”. “Desassossego” vai no mesmo caminho.

“Desentendimento” é mais bruta; é eufemismo para briga. Ao contrário, de alto valor moral são

40--“destemor” e “desassombro” ao opor-se ao temor e ao assombro. “Desatino” é humilhante; é perder o tino.

“Desoras” só pode ter sido criada por um surrealista. Usa-se no sentido de “altas horas”, mas na pura raiz

etimológica significa estar fora das horas – como assim, fora das horas? “Desasnar” é o inspirado sinônimo

de aprender pela via de deixar de ser asno.

Uma ida ao dicionário, onde dormem as palavras em estado de inocência, revela maravilhas. O leitor

45--não deve saber, como o colunista não sabia, que existe a palavra “desnamorar”, assim como “desnamorado”.

A difícil arte do dicionarista revela-se em seu melhor na definição de “namorar” do Houaiss: “terem duas

pessoas relacionamento amoroso em que a aproximação física e psíquica, fundada numa atração recíproca,

aspira à continuidade”. Descontinuada tal relação, fica-se com a desconsolada figura do desnamorado, que

se imagina desamparado, a desoras, desnorteado e desterrado de si mesmo, desfeliz.

(TOLEDO, Roberto Pompeu de. A desoras, desfeliz. Revista Veja, 3-março-2015.)

Em todos as alternativas, verifica-se o uso de linguagem metafórica, EXCETO


A

“Uma ida ao dicionário, onde dormem as palavras em estado de inocência, revela maravilhas.” (Linha 44)


B

“O ‘des’ traz em si a atração anarquista de pôr o mundo de cabeça para baixo.” (Linha 34)


C

“... por que raios, ó insistente leitor, o colunista teria sempre de afundar no mar de nossas misérias públicas?” (Linhas 25-26)


D

“É o que aguarda, no romance, a inocente Oribela. Há bons exemplos mais antigos.” (Linha 19)