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O texto a seguir é um fragmento do romance “Esaú e Jacó”, do escritor brasileiro Machado de Assis. Essa obra aborda parte importante da história do Brasil. Leia o texto a seguir com atenção para responder à questão 18.
“Referido o que lá fica atrás, Custódio confessou tudo o que perdia no título e na despesa, o mal que lhe trazia a conservação do nome da casa, a impossibilidade de achar outro, um abismo, em suma. Não sabia que buscasse; faltava-lhe invenção e paz de espírito. Se pudesse, liquidava a confeitaria. E afinal que tinha ele com política? Era um simples fabricante e vendedor de doces, estimado, afreguesado, respeitado, e principalmente respeitador da ordem pública ...
– Mas o que é que há? perguntou Aires.
– A república está proclamada. – Já há governo?
– Penso que já; mas diga-me V. Excia.: ouviu alguém acusar-me jamais de atacar o governo? Ninguém.
Entretanto ... Uma fatalidade! Venha em meu socorro, Excelentíssimo. Ajude-me a sair deste embaraço. A tabuleta está pronta, o nome todo pintado “Confeitaria do Império”, a tinta é viva e bonita. O pintor teima em que lhe pague o trabalho, para então fazer outro. Eu, se a obra não estivesse acabada, mudava de título, por mais que me custasse, mas hei de perder o dinheiro que gastei? V. Excia. crê que, se ficar “Império”, venham quebrar-me as vidraças?
– Isso não sei.
– Realmente, não há motivo; é o nome da casa, nome de trinta anos, ninguém a conhece de outro modo ...
– Mas pode pôr “Confeitaria da República” ...
– Lembrou-me isso, em caminho, mas também me lembrou que, se daqui a um ou dois meses, houver nova reviravolta, fico no ponto em que estou hoje, e perco outra vez o dinheiro.
– Tem razão ... Sente-se.
– Estou bem.
– Sente-se e fume um charuto. Custódio recusou o charuto, não fumava. Aceitou a cadeira. Estava no gabinete de trabalho, em que algumas curiosidades lhe chamariam a atenção, se não fosse o atordoamento do espírito. Continuou a implorar o socorro do vizinho. S. Excia., com a grande inteligência que Deus lhe dera, podia salvá-lo. Aires propôs-lhe um meio-termo, um título que iria com ambas as hipóteses,
– “Confeitaria do Governo”. – Tanto serve para um regime como para outro.
– Não digo que não, e, a não ser a despesa perdida ... Há, porém, uma razão contra. V. Excia. sabe que nenhum governo deixa de ter oposição. As oposições, quando descerem à rua, podem implicar comigo, imaginar que as desafio, e quebrarem-me a tabuleta; entretanto, o que eu procuro é o respeito de todos.”
(ASSIS, Machado de. Esaú e Jacó. São Paulo: Companhia das Letras, 2012)
Acerca do texto acima, assinale a alternativa com uma interpretação incorreta das ideias tratadas pelo autor:
O texto refere-se ao período da Primeira República Brasileira, também conhecido como República Velha ou República das Oligarquias, período da história do Brasil que se estendeu da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, até a Revolução de 1930.
Machado de Assis retrata no texto o grande envolvimento de outras parcelas da sociedade na queda da monarquia, além dos republicanos e militares que participaram do golpe.
Nesse período histórico retratado pelo texto, houve a promulgação da primeira constituição republicana brasileira.
A Primeira República é dividida pelos historiadores em dois períodos: o primeiro período, chamado de "República da Espada", foi dominado pelos setores mobilizados do Exército apoiados pelos republicanos e o segundo, que ficou conhecido como "República Oligárquica" e se estendeu de 1894 até a Revolução de 1930.