Atenção: Para responder às questões de números 01 a 10, considere o texto
abaixo.
A NAU AVARIADA
LYA LUFT
No artigo anterior escrevi sobre o desejo (ingênuo) de união, uma
vez que estamos todos neste
grande navio onde nada funciona bem: economia, saúde, educação, infraestrutura, honradez e
confiança nas instituições. De vez em quando é bom permitir-se um desejo inocente. A
realidade, porém, é outra, disso todos sabemos, sobretudo quem inventa artifícios para se
firmar em seu posto, como dizer que está tudo muito bem.
Está
tudo periclitando: dois dos pilares de uma nação soberana são confiança e verdade — estas
estão gravemente abaladas no Brasil. Agora mesmo começam ___ medidas que, segundo tantos,
seriam tomadas pela oposição caso ela vencesse: cortes e aumentos. O povo pobre, cansado,
exaurido e iludido, ...... não tinha como prever isso, agora paga ___ alta conta. E diz,
suspirando: "Vamos tocar em frente". Também se afirma que puseram fim ___ pobreza no país, a
miséria já não existe: um dos recursos foi inventar que todo aquele que ganha acima de 300
reais por mês é classe média. Sem comentários.
Outra base é a
liberdade: uma nação não é soberana se os cidadãos não podem se expressar sem
medo de repressão. Ofensas graves podem ser cobradas. Porém, a repetida intenção de
regulamentar, isto é, amordaçar, a imprensa revela um autoritarismo impensável numa
democracia. A esperança é que o Congresso impeça isso a qualquer custo, incluindo aí vozes
honradas e fortes de todos os partidos, ou estaremos fora das nações ditas livres.
Mais um pilar desse fundamento de muitas pernas é a educação, ...... falo
e escrevo há tantos
anos. Raramente comento algum livro: estou do lado de cá do balcão, escrevo livros, não os
estudo nem critico, isso deixo para especialistas ou colegas que o saibam fazer. Mas sugiro
minha leitura destes dias: As Crianças Mais Inteligentes do Mundo, de Amanda Ripley. Uma
experiente jornalista americana acompanhou por um bom tempo três alunos de 2o grau que foram
estudar na Finlândia, Coreia do Sul e Polônia. Nesses países estavam os estudantes que mais se
destacavam num critério estabelecido mundialmente, o chamado Pisa, que avalia o grau de
excelência do ensino em várias nações. O resultado foi que nesses três lugares estavam os
melhores alunos, o melhor ensino, os melhores professores, ganhando até de países mais ricos,
como os Estados Unidos.
O que os distinguia? Resumindo: rigor.
Palavra que nos dá arrepios, nós que somos do "deixa
pra lá", "toca em frente", "Deus quis assim", e por aí vai. Rigor significa, nesses casos,
primeiro, alta valorização dos professores, muito exigidos na sua preparação, muito
estimulados e, consequentemente, muito respeitados e bem pagos. O cargo de professor é tão
valorizado como a profissão de médico. Portanto, professores satisfeitos, competentes, que por
sua vez vão ser exigentes com seus alunos.
Isso não significa
frios, cruéis, carrascos, mas respeitosos: só respeito aquele ...... posso
exigir algo dentro do possível. Assim, alunos se esforçam, orgulham-se de suas notas, gostam
de estudar e trabalhar. Nessas escolas o aluno mais apreciado não é o melhor esportista nem o
mais popular, mas o melhor no estudo e na compostura. ___ uma competição saudável e alegre no
trabalho pelo futuro pessoal.
Aqui, ...... o estudo é cada vez
mais fraco, um deputado propõe que se retire das escolas o
ensino do inglês; uma alta autoridade sugere o mesmo para "matérias inúteis como filosofia e
sociologia, pois os alunos já estudam demais".
Um dado
surpreende no citado livro: excelência não tem a ver com raça nem riqueza. Mas não se
pode aplicar nada disso ...... reinam miséria e descaso, como revelam frequentes reportagens
no Brasil sobre lugares sem escola, escola sem assoalho, sem cadeiras nem mesas, sem material
escolar e sem comida para as crianças. Perguntaram a um menininho o que ele mais queria poder
comer na escola.
Ele disse, baixinho: "Arroz".
___ outros pilares para estabelecer uma nação soberana e livre, enquanto nós
aqui afundamos na
omissão e na resignada mediocridade. Merecíamos mais.
Revista VEJA, publicação de 19/11/2014, adaptado.