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Texto 1 – questões 1 a 10.
Um pouco de gentileza
Ivan Ângelo
- Pessoas bem educadas pedem “por favor”. Assim aprendemos, assim
- muitos pais continuam a ensinar. A ideia prática por trás da polidez sempre foi
- esta: se você pede com bons modos, tem mais chance de conseguir o que quer.
- Funcionava.
- Em algum momento, que não consigo localizar no tempo exato da minha
- vivência, mas calculo que tenha sido pela metade dos anos 1960, o desrespeito,
- e logo a grosseria, e daí a pouco a arrogância, e já, já a truculência,
- contrabandeados da caserna para a vida civil e aprendidos em culturas de fora,
- instalaram-se nos modos do morador civilizado das nossas cidades, aquele que
- dava lugar no bonde às senhoras e aos mais velhos, dizia bom dia aos que
- passavam, pedia licença, não economizava o “por favor”, deixava entrar primeiro
- as damas, abria a porta do carro para a namorada, e tantas gentilezas extintas
- ou em extinção.
- Noto, circulando pela cidade, que há sinais de amabilidade por aí,
- uma cordialidade escrita. Pedidos e avisos delicados, dirigidos aos cidadãos
- passantes. Pode ser uma retomada, por que não? [...]
- Uma placa bem no centro do muro do estacionamento de uma farmácia
- na Pompeia: “Este estabelecimento cuida da sua saúde, portanto o aspecto de
- limpeza é muito importante. Por favor, não piche. Contamos com a sua
- colaboração”. O muro tem estado limpo de rabiscos nestes dois anos em que
- venho andando por lá a caminho da hidroginástica.
- Há quem junte humor e ironia ao pedido, sem perder a delicadeza. Em
- uma aréola na Pompeia (sabem o que é uma aréola? Eu também não sabia,
- excetuando o círculo destacado que enfeita os seios humanos. Pois aprendi que
- o pequeno ajardinado que circula o pé das árvores nas calçadas também se
- chama aréola. Quem terá posto nome tão delicado quanto apropriado ao
- jardinzinho?), então, eu dizia, em uma aréola na Pompeia, encontro fincada uma
- plaquinha com os dizeres: “Sr. Cão, favor não fazer suas necessidades neste
- local”.
- Bem perto dali, em um ajardinado que contorna um poste, fincaram um
- repique com nova dose de humor: “Sr. Cão, favor não deixar seu dono fazer xixi
- aqui”. No jardim em frente a um prédio nas Perdizes, mais um recado para os
- cães alfabetizados: “Senhor cão, cuidado, veneno para ratos”. [...]
- Em um posto de gasolina no Pari: “Senhor ladrão, favor passar outra
- hora. Seu colega já levou tudo”. Será que adianta?
- Até quem tem mais de 100 anos e boa memória se lembra do aviso nas
- casas do pequeno comércio de bairro: “Fiado, só amanhã”. Achávamos graça
- nessa habilidade com as palavras. Surgem novos arranjos hábeis sem perda de
- lhaneza: “Vendemos fiado pelo dobro do preço”; “Não vendo fiado nas
- segundas-feiras; nos outros dias, só a dinheiro”. [...]
Disponível em: <http://vejasp.abril.com.br/materia/ivan-angelo-um-pouco-de-gentileza-cronica>.
Acesso em: 19 ago. 2017.