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Pela forma ETs (L.71), o texto se utiliza do recurso da:

Texto I


Alegria, Alegria

Pelo menos no dia e na hora em que escrevo, faz um lindo

dia outonal, como espero que também neste domingo. Os

ares parecem puros, o céu está azul e límpido e a orla da Baía

de Guanabara, que fica aqui tão pertinho de onde eu moro, lá

5 permanece em sua formosura esplendorosa e irrespondível.

Devemos, portanto, estar felizes. Claro, a bela leitora (não é

machismo ou discriminação, são hábitos de antanho, pois diz

a lei que sou do tempo dos afonsinhos) e o inteligente leitor

(idem) podem ser agnósticos ou ateus, mas também podem

10 fingir por um momento que não são e pensar como de fato o

Senhor Bom Deus caprichou ao nos dadivar a nossa terra – e

não somente o Rio, é claro, mas tão grande parte de toda ela.

E nos deu tantas coisas mais que até piadas criamos sobre

isso. Todo mundo conhece esta, mas eu a repito, estou

15 amparado pelo Estatuto do Idoso. Durante a Criação, estava

Deus dando tanto ao Brasil, que um anjo certamente argentino

(desculpem, não estou encampando a nova babaquice

binacional, que é ficarmos brigando, argentinos e brasileiros,

ambos no caso estúpidos, preconceituosos e atrasados –

20 estou somente querendo fazer uma gracinha da moda

mesmo) reclamou da injustiça para com os demais países. No

que Deus teria replicado que esperassem o povinho ordinário

que Ele ia botar naquela terra magnífica.

Nós somos esse povinho. De modo geral, devemos

25 reconhecer que a piada tem lá seu fundamento. Meu papagaio

de Itaparica (vivia solto, eu não prendia nada, ele apenas

morava lá em casa; não quero incorrer em crime inafiançável e

passar cinco anos na cadeia, pois aqui no Brasil somos muito

rigorosos, vejam só como todos os ladrões e falcatrueiros

30 importantes estão por trás das grades e não mandando na

gente) uma vez fez cocô de uma semente de mamão numa

fresta do cimento do pátio e, no meio dessa frestinha, brotou

um mamoeirão tão feraz que eu tinha trabalho para distribuir

mamões entre os amigos, ninguém agüentava mais. Aqui há

35 plantas que dão duas, três safras por ano. Na Europa, é

dureza. Nascer, nascem, mas o sujeito praticamente tem de

dormir com as plantas, para que elas não definhem por falta

de algum dos inúmeros cuidados de que necessitam. E duas

safras eles pensam que é mentira, quando a gente conta.

40 Mas, mesmo assim, a pobreza aqui é grande, a miséria

aumenta, o medo cresce.

A culpa, naturalmente, não é nossa. É da colonização

portuguesa, essa desgraça que nos caiu sobre as cabeças,

quando podíamos estar tão bem quanto o Suriname,

45 colonizado pelos holandeses, Bangladesh, colonizada pelos

ingleses, o Senegal, colonizado pelos franceses ou a Etiópia,

colonizada pelos italianos. Ou poderíamos não ter sido

descobertos pelos europeus e continuarmos com a nossa

verdadeira identidade brutalmente invadida, que é a de índios,

50 como constata quem quer que olhe para qualquer um de nós,

pois brasileiro é tudo igual um ao outro, impressionante. E

também é culpa dos americanos que, bem verdade, já foram

uma nação menor, mais pobre e mais atrasada que a nossa,

mas tiveram a sorte de contar com Errol Flynn, John Wayne,

55 Gary Cooper e tantos e tantos outros, enquanto nós mal

podemos ostentar um Lampião muito do fuleiro. E não

esqueçamos tampouco os comunistas, que nunca exerceram

poder político ou econômico por aqui, mas estragaram, com

sua ideologia exótica, a flor dos cérebros de pelo menos umas

60 três gerações.

Azar, azar, azar. Povo tão bom que nós somos, fomos

arranjar, por exemplo, políticos abomináveis, como às vezes

nos parecem ser quase todos eles. Claro, é porque não são

brasileiros, estão aqui para roubar a gente e ver a gente se

65 lascar mesmo. De onde será que terão saído esses

desgraçados? É um mistério profundo que, se resolvermos,

extirparemos de vez nossos problemas. É só trocar esses

políticos saídos não se sabe de onde por brasileiros iguais a

nós, legítimos, honestos, trabalhadores, aplicados, sérios e,

além disso, de grande cordialidade e extraordinária

70 musicalidade. Desmascaremos e deportemos esses ETs,

juntamente com funcionários (perdão, servidores) larápios,

inúteis ou incompetentes, que tampouco são brasileiros, maus

75 policiais, prefeitos corruptos, assaltantes, traficantes e assim

por diante. O Brasil é nosso, vamos tirá-lo das mãos desse

pessoal que não tem nada a ver conosco, nem foi criado como

nós, nas mesmas cidades, comendo a mesma comida,

falando a mesma língua e partilhando a mesma História.

O brasileiro é como eu ou você. Já não digo como o

presidente, pois este nem pecado tem, mas como eu, você ou o

80 vizinho. O povo é bom e honesto. Como demonstrou um

programa para auxiliar famílias pobres do interior. Os pobres não

receberam a ajuda, que ficou com as famílias remediadas ou ricas

mesmo. E, quando alguém que não precisa recusa essa ajuda, a

gente dá uma festa e bota no jornal, apesar de ser acontecimento

85 tão trivial. Não somos nós que fazemos gatos para furtar energia

elétrica ou água, ricos ou pobres. Não mentimos nem mesmo

quando respondemos àquelas enquetes "que você está lendo?",

onde se nota que entre nós pouca gente lê, todo mundo relê:

"Estou relendo Proust." "Estou relendo Dante." Assim como

90 nenhum de nós jamais deu a cervejinha do guarda, nem o guarda

jamais achacou ninguém. Aqui não existe o PF, o famoso "por

fora", para ajudar uma tramitação. Nunca furamos fila ou

adotamos o pistolão, Deus nos guarde e, quando eu era

examinador nos vestibulares antigos, havia diversos candidatos

95 que não traziam um cartão de recomendação. Até hoje, quando

tomo parte no júri de um concurso, só recebo pedidos de

favorecimento em menos de 90 por cento dos casos, percentual

ridículo. Que dia lindo, não? Mó num pá tropi, abençoá por Dê.

(João Ubaldo Ribeiro. O Globo, 22/05/2005)

Pela forma ETs (L.71), o texto se utiliza do recurso da:


A

catacrese.


B

hipérbole.


C

metáfora.


D

metonímia.


E

sinestesia.