Imagem de fundo

Da oração “Aprendi com uma experiência bastante didática”...

Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.


Quando o mundo de fora passa a existir dentro de nós


  1. Quero falar de sentimentos contraditórios, até porque talvez todos os sentimentos tragam
  2. em si lados opositores. Particularmente, nunca fui uma pessoa cem por cento caseira, ou
  3. obsecada em passar o tempo fora do lar. Sempre precisei de um certo equilíbrio entre ficar no
  4. meu cantinho e explorar o mundo exterior. Contraditório? Provavelmente. E, nestes tempos de
  5. voltar para o casulo em período integral, o que mais tenho feito – além de aspirar e esfregar
  6. cantos até então desconhecidos da minha casa –, tenho refletido bastante. Lembrei-me de uma
  7. ocasião em que, por um motivo de doença, tive de ficar em casa por dez dias, sem sair mesmo.
  8. Fui acometida por uma crise de labirintite, causada por uma bactéria do mar que se alojou no
  9. meu ouvido direito. Ficar quieta, naquela situação, não era uma escolha, era uma imposição do
  10. meu corpo que havia perdido o eixo de equilíbrio. Ficar em pé, ou mesmo mover a cabeça, eram
  11. um enorme desafio, posto que qualquer movimento me dava a sensação de estar em um
  12. barquinho numa tempestade em alto-mar. Vendo-me sem escolha, aquietei-me. Nada de ler, ou
  13. desenhar, ou pintar, ou bordar, ou fazer crochê. Tive de me contentar em ouvir música ou
  14. notícias pelo rádio; aprendi a relembrar histórias reais ou fictícias e conjurar filmes inteiros em
  15. minha imaginação; aprendi a meditar; fazia listas mentais de palavras em ordem alfabética;
  16. redecorava cômodos dentro da minha cabeça.
  17. Aprendi com uma experiência bastante didática, a partir da qual compreendi o quanto somos
  18. vulneráveis e temos pouco controle sobre o que pode entrar em nossos corpos, sem nenhum
  19. tipo de convite. Bem, passados os dez dias, tenho viva na memória a sensação impactante que
  20. foi sair de casa pela primeira vez. Tudo parecia muito diferente, como se eu tivesse dormido por
  21. anos. Achei o mundo lá fora excessivamente ruidoso, iluminado e agressivo. Lembro-me de ter
  22. sentido até um desconforto físico, uma mistura de falta de ar com taquicardia. Precisei de tempo
  23. para me readaptar ao ritmo externo, depois de tanto tempo voltada para dentro de mim.
  24. Enquanto eu funcionava em câmera lenta, o mundo parecia acelerado por demais. Aos poucos,
  25. no entanto, o estranhamento foi passando. O mundo não se alterou por minha causa, mas eu
  26. tive de reaprender a me encaixar no seu ritmo.
  27. Hoje, penso no quanto as nossas experiências pré-gressas são valiosos instrumentos de
  28. validação da nossa passagem por este mundo. Penso no quanto as memórias de momentos
  29. vividos são importantes para evocar a presença de pessoas queridas. Reflito sobre a importância
  30. dos espaços e dos tempos experienciados ou negligenciados na correria dos dias, congelados
  31. naquele tempo em que nunca havíamos ouvido falar de Covid-19. Hoje, além de querer falar de
  32. sentimentos contraditórios, quero também lhe contar que tenho visto, aqui da minha janela –
  33. real e virtual –, que o mundo está se transformando lá fora enquanto nos recolhemos. Quero lhe
  34. falar que tenho visto gente prestar sua ajuda a pessoas estranhas, distantes, desconhecidas.
  35. Também tenho visto gente que, endurecida em suas crenças cristalizadas, recusa-se a ver que
  36. o mundo exige de nós uma mudança de paradigmas. O planeta, saturado de nós, está nos dando
  37. a oportunidade de ressignificarmos nossa relação com o outro, com o espaço que ocupamos,
  38. com o que é essencial, com a nossa missão no mundo, com a nossa vulnerabilidade, com o
  39. dinheiro-papel (a popular grana), com o tempo, com a vida e o fim dela.
  40. O mundo não será mais o mesmo depois dessa pandemia. Nós também não seremos mais
  41. os mesmos. E eu torço para que, quando tudo tiver passado, possamos dizer: “eu fiz a minha
  42. parte, entendi que é preciso que me recolha, que eu lute pela vida dos meus irmãos aqui na
  43. terra. Eu compreendi que, se cada um renunciar ________ que ______ em excesso, não há de
  44. ter nenhum de nós sentindo fome, frio ou medo”. Em minha imaginação e em meu peito, eu
  45. conjuro uma humanidade que aprendeu – ainda que tenha sido de modo forçado – que não
  46. existe o outro. Somos todos um único organismo vivo. Quando um de nós perece, seja por falta
  47. de recursos materiais ou por irresponsabilidade, um pedacinho de nós desaparece junto com ele.



(Disponível em: https://www.contioutra.com/quando-o-mundo-de-fora-passa-a-existir-dentro-de-nos/ – texto

adaptado especialmente para esta prova).


Da oração “Aprendi com uma experiência bastante didática”, o sujeito é:


A

Composto.


B

Expresso.


C

Indeterminado.


D

Oculto.