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Considere o seguinte trecho e assinale a alternativa que...

Leia a coluna do psicanalista Contardo Calligaris, publicada no jornal Folha de S. Paulo em 13/02/2020, e responda às questões de 01 a 06.


Os ignorantes, os ignorábimus e os simples de espírito

São os mentecaptos que proíbem livros que nunca leram


1 Ignorantes somos todos, porque é sempre pouco o

2 tempo que temos para estudar, ler e tentar

3 entender.

4 Os menos ignorantes, aliás, concordam com

5 Sócrates (segundo Cícero): “Só sei que nada sei”.

6 Agora, há uma diferença grande entre ignorantes e

7 ignorábimus (com acento, como substantivo da

8 língua portuguesa). O que é um ignorábimus?

9 “Ignorabimus”, em latim, é uma voz verbal, que

10 significa ignoraremos, e que ficou famosa por

11 causa de um fisiologista alemão que, no fim do

12 século 19, escreveu que sempre haveria coisas que

13 a ciência não alcança: ignoramos e ignoraremos,

14 foram as palavras dele. Isso pode parecer uma

15 banalidade: afinal, o campo do saber é infinito.

16 Mas eis que um grande matemático, David Hilbert,

17 ao se aposentar em 1930, achou bom responder

18 com uma frase que está hoje na lápide da tumba

19 dele, no cemitério de Göttingen, na Alemanha, que

20 visitei (iniciativa de meu pai) no fim dos anos 1950:

21 “Wir müssen wissen, Wir werden wissen”, devemos

22 saber e saberemos.

23 Hilbert aparentemente achava que qualquer

24 fatalismo da ignorância podia estar ao serviço de

25 um obscurantismo preguiçoso.

26 Falando em ignorância, Nicolau de Cusa, filósofo

27 cristão, em 1440, publicou o famoso “De

28 Docta Ignorantia”, sobre a douta ignorância. Para o

29 cusano, que simpatizava com Sócrates, saber que

30 somos ignorantes é o que alimenta nossa paixão de

31 saber e entender mais.

32 Sem entrar em detalhes, o que importa é que nem

33 Nicolau de Cusa acreditava na ignorância como

34 virtude, longe disso.

35 (...)

36 Mas quem faz, então, a apologia da ignorância?

37 Quem acha a ignorância legal? Não acredito que o

38 Deus cristão seja apologista da ignorância, mas

39 certamente ele serviu e serve de boa desculpa.

40 Veja-se o começo do sermão da montanha:

41 “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque

42 deles é o reino dos céus” (Mateus 5:1-3).

43 Entendo que Cristo dava o passe do paraíso para

44 os pobres de espírito porque eles não puderam

45 estudar numa escola boa, ou não tiveram um

46 professor decente ou cresceram numa casa tosca,

47 em que o saber não tinha valor, ou algo parecido ou

48 pior.

49 Mas houve os que entenderam que Cristo, no

50 sermão da montanha, fazia a apologia dos

51 preguiçosos. Por exemplo, entre os séculos 12 e

52 16, houve cristãos para pensar que a ignorância e a

53 burrice deles fossem uma bênção. Eles achavam,

54 aliás, que, se cultivassem bem sua ignorância,

55 Cristo lhes garantiria mais que um passe: um

56 verdadeiro “hall pass” — um passe livre para a

57 suruba. Ou seja, os simplórios, como já ganharam

58 o paraíso por sua ignorância, podiam fornicar

59 livremente.

60 A Igreja não gostou, e eles foram eliminados.

61 Hoje, parece que os pobres de espírito voltaram. Só

62 que, desta vez, a pobreza de espírito não serve para

63 fornicar livremente (quem dera), mas para reprimir

64 os outros. A lógica é: do alto de minha ignorância

65 (que mantenho inalterada pois ela me garante o

66 paraíso), imponho a todos o que acho certo ou

67 errado.

68 Esses novos pobres de espírito têm a ignorância

69 como programa de vida (de governo deles mesmos

70 e dos outros). Não sabem e não querem se instruir.

71 Eles são os ignorábimus. Como reconhecê-los?

72 São os mentecaptos que proíbem livros que nunca

73 leram, aqueles que desprezam filmes que nunca

74 viram, aqueles que organizam testes de

75 conhecimentos nos quais eles mesmos nunca

76 passariam, são os mentirosos (ou as mentirosas)

77 que se declaram mestres e especialistas, mas não

78 têm diploma algum, são aqueles que acham que

79 nos livros de texto para crianças há palavras

80 demais e é preciso “aliviar”, são aqueles (ou

81 aquelas) que declaram que, lendo o Gênesis, os

82 alunos aprendem geografia, história e matemática

83 —por que estudar mais?

84 Os ignorábimus têm uma verdadeira paixão da

85 ignorância. Talvez seja esta a maior descoberta da

86 psicanálise —o que sobrará dela daqui um século

87 ou dois: a paixão da ignorância começa, em cada

88 um, pela vontade de ele ignorar seu próprio desejo

89 e suas fantasias, sobretudo (mas não só) sexuais.

90 Por isso, o ignorábimus odeia a cultura, porque a

91 cultura sempre nos revela coisas que ignoramos

92 sobre nós mesmos.

93 Mas talvez essa explicação toda da paixão da

94 ignorância não seja necessária. Talvez o

95 ignorábimus, vestindo a carapuça do pobre de

96 espírito do evangelho, esteja apenas procurando

97 uma desculpa para sua infindável preguiça.


Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2020/02/osignorantes-os-ignorabimus-e-os-simples-de-espirito.shtml

Considere o seguinte trecho e assinale a alternativa que apresenta a informação correta sobre os termos destacados.


“Ignorabimus”, em latim, é uma voz verbal, que significa ignoraremos, e que ficou famosa por causa de um fisiologista alemão que, no fim do século 19, escreveu que sempre haveria coisas que a ciência não alcança: ignoramos e ignoraremos, foram as palavras dele.


A

Classificam-se, respectivamente, como: pronome relativo, conjunção explicativa, pronome relativo, conjunção integrante, pronome relativo.


B

A primeira e segunda ocorrências retomam o mesmo referente: “latim”.


C

Na quinta ocorrência, o termo é sujeito da oração cujo verbo principal é “alcança”.


D

Na quarta ocorrência, o termo introduz uma oração subordinada substantiva objetiva direta.