Leia atentamente o texto a seguir para responder às questões de 01 a 10.
Com tragédia e bom humor, ‘Parasita’ é um dos grandes filmes do ano
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes,
Bong Joon-Ho compõe quadro dramático da Coreia do Sul
Inácio Araujo
- No centro de “Parasita” existe um buraco negro. Ele separa, numa
- imponente mansão, a área social do lugar que os pobres frequentam, uns para
- viver, outros para se digladiar.
- A atenção dada ao lugar por Bong Joon-ho, autor do filme que levou a
- Palma de Ouro em Cannes neste ano, é evidente. Ela é marcada por ligeiros
- travellings, movimento de câmera no qual ela se desloca pelo espaço, cada vez
- – ou quase – que a passagem aparece.
- Essa passagem delimita dois mundos – o dos ricos e o dos pobres.
- Embora contíguas, essas duas categorias (ou classes sociais) vivem em
- mundos à parte. No dos ricos, só o homem trabalha, mantém a sua empresa,
- enquanto a mulher mal se ocupa da casa, com a ajuda de uma governanta. A
- mãe se preocupa obsessivamente com o filho, que certa noite, conforme sua
- narrativa, viu um fantasma (uma cabeça que apareceu no buraco negro,
- justamente). A família vive sem nenhuma preocupação, e essa ausência de
- preocupação parece engendrar uma incapacidade de lidar com o mundo dos
- pobres, que ignora.
- Do outro lado, existem os pobres, os vigaristas. Mas também podem ser
- chamados de artistas, tanto faz. O importante para eles não é como são
- chamados, mas a capacidade que desenvolvem de representar vários papéis
- (professores, motorista, governanta), de modo a se introduzir na mansão e
- desfrutar dos salários pagos pelos ricos.
- Não se trata de um assalto ou coisa assim. Por vezes, aproveitadores,
- sem dúvida. Seu problema não é esse, mas sim a existência de um bunker
- projetado para acolher a rica família em caso de ataque.
- Daí nascerá o real conflito do filme, em que pobres e pobres se
- enfrentam por um bom tempo, enquanto os ricos mal percebem o que se passa.
- As consequências virão para todos, é verdade, mas isso diz respeito à intriga,
- muito original, mas sobretudo reveladora de certos desequilíbrios que afetam a
- Coreia do Sul.
- Num país admirado mundialmente, admirável mesmo, pela maneira
- agressiva como passou do subdesenvolvimento a um invejável avanço
- tecnológico e cultural, o progresso parece ter deixado – ao menos é o ponto de
- vista do filme – rastros de seu ritmo vertiginoso nas relações entre as pessoas e
- as classes sociais.
- Os ricos são marcados aqui por viverem alienados num mundo
- particular em que até mesmo a existência dos pobres é ignorada. Os pobres
- são relegados a subempregos e condenados a viver em pardieiros, afligidos por
- dificuldades de todo tipo.
- Tudo isso seria banal, se não fosse a condução formidável de Joon-ho.
- Ao filme não falta humor nem tragédia, não falta um ritmo ágil, simplicidade e
- eficácia nos enquadramentos e na direção de atores.
- Não falta um visão aguda dos desequilíbrios de uma sociedade que já
- povoaram seus filmes com monstros (“O Hospedeiro”), com mães protetoras
- (“Mother”), com crimes em série (“Memórias de um Assassino”, seu melhor
- filme).
- Do terror ao policial, da violência ao fantástico, Joon-ho vai compondo,
- filme a filme, um quadro notável, talentoso e original desse país que nos parece
- a princípio tão distante, mas de certos pontos de vista nos é tão familiar, já que
- esses buracos negros, pelos quais se escoa o mal-estar da civilização, estão
em toda parte. “Parasita” é, de longe, um dos grandes filmes deste ano
carregado de bons filmes.
Disponível em https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2019/11/com-tragedia-e-bom-humor-parasita-e-um-dos-grandes-filmes-do-ano.shtml
Acessado em 6 de janeiro de 2020