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Com base no trecho a seguir, responda às questões 46 e...

Texto: O OLHAR

O olho tem um papel determinante para a espécie humana. Há um grande consenso sobre a importância da visão para a conformação do nosso cérebro. O uso de patas dianteiras como mãos teria levado ao desenvolvimento da visão que, por sua vez, teria propiciado o desenvolvimento do maior e mais complexo cérebro encontrado em todas as espécies animais. Mas essa importância efetiva não nos faz outorgar à visão uma reflexão proporcional. A nossa sociedade não nos ensina a olhar, pelo menos não formalmente, e isso repercute na nossa absoluta inconsciência sobre a forma como vemos.

Para interpretar, usamos modelos, categorias e processos cognitivos aprendidos no meio no qual fomos socializados. É isso que, no século XVII, o padre Antônio Vieira afirmara num sermão ao dizer “o olho não vê coisas, mas imagens de coisas que significam outras coisas”. Entre o olho e as coisas estão as imagens, que são o resultado da forma como fomos ensinados a olhar, pois um fato é o olho como órgão receptor e, outro, o olhar. Simplificando, podemos dizer que o olho apenas é, e o olhar é fabricado para ver certas coisas, mas igualmente para não ver outras. Não basta termos olhos, termos luz, termos objetos; para se ver, é preciso querer ver. A evolução da visão humana obedeceu a fins práticos, vendo-se aquilo que era útil ver.

As formas de ver foram se modificando e adquirindo particularidades. Os diários e crônicas dos padres e conquistadores da América dos séculos XVI e XVII são um excelente material para entender a forma específica de ver desse período. Referindo-se especificamente a Colombo, a pesquisadora Janice Theodoro afirma que ele via “mais com a imaginação do que com a vista”. Em primeiro lugar, era um olhar apenas para as afinidades, ou seja, vendo ou as semelhanças ou as diferenças entre os chamados índios e os espanhóis. Em segundo lugar, se tratava de um olhar que procurava indícios: Colombo tinha uma hipótese a ser comprovada e tudo aquilo que servia nessa empreitada era descrito, não mencionando nada daquilo que não podia ser identificado (a flora, por exemplo). Em terceiro lugar, se tratava de um ver o que devia ser e não o que efetivamente era. Finalmente, era um olhar que se bastava com as aparências.

A ênfase na aparência fala-nos de uma profunda suposição prévia de que o europeu conhecia o Outro, assim sendo, não havia necessidade de aprofundamento. Este achar que já se conhece o Outro porque ele, no fundo, não é Outro (nega-se a alteridade) é evidente no episódio narrado por Joan Bestard e Jesús Contreras, antropólogos espanhóis, sobre o surgimento do nome Yucatán para a conhecida península mexicana. Quando perguntaram aos nativos sobre o nome do lugar, estes teriam respondido algo que os colonizadores entenderam como Yucatán, e assim denominaram o lugar. Na verdade, o que eles disseram em sua língua foi “não te entendo”, mas os espanhóis não conseguiam entender que os indígenas, em uma língua própria deles e desconhecida pelos europeus, pudessem não os entender.

Este exemplo demonstra muito bem como o esquema cognitivo é o que permite (ou não) a leitura de uma realidade observada. A identidade (e não a alteridade) compunha o essencial do esquema cognitivo do europeu até o século XVII.

URPI MONTOYA URIARTE

Adaptado de journals.openedition.org.

Com base no trecho a seguir, responda às questões 46 e 47.


Em segundo lugar, se tratava de um olhar que procurava indícios: Colombo tinha uma hipótese a ser comprovada e tudo aquilo que servia nessa empreitada era descrito, não mencionando nada daquilo que não podia ser identificado (a flora, por exemplo). (3º parágrafo)


Tendo em vista os procedimentos de Colombo, conclui-se que a palavra “hipótese” não está sendo empregada em sua acepção usual.


Seu emprego nesse contexto representa um exemplo da seguinte figura de linguagem:


A

metonímia


B

eufemismo


C

metáfora


D

antítese