TEXTO I
O galo e a raposa
Era um
galo do mato, muito quietinho no
seu canto, que não incomodava
ninguém.
Ciscava o de-comer no
quintal, cantava no
galho mais alto da goiabeira quando saía o
sol e
vivia de olho no mato, com medo de alguma
raposa que pudesse aparecer.
Um dia,
logo depois da alvorada, ele
reparou que alguma coisa estava se mexendo
na
capoeira mais próxima.
Na mesma
hora o galo deu uma corridinha,
sacudiu as asas para ajudar o pulo e
saltou, mais
que depressa, para o alto da goiabeira.
Foi só ele se acomodar e apareceu,
como
sempre muito esperta, Dona Raposa.
- Bom dia, compadre Galo – a raposa
disse, muito gentil.
- Bom dia, comadre Raposa –
respondeu o
galo, muito desconfiado!
- Mas o
que é isso, compadre Galo? Pode
descer da sua árvore! Não precisa ter medo
de
mim... O compadre não está sabendo que foi
decretada a Paz entre os animais? Nosso
rei Leão
resolveu que de agora em diante não há
mais animais inimigos... O gato anda aos
beijos com o rato, o
lobo aos abraços com o carneiro...
-
Ora veja, comadre – disse o galo. – É
verdade, mesmo?
- Pois é isso, compadre Galo. O compadre
não sabia, não?
- Não sabia não, comadre Raposa, não
sabia não...
- Pois desça do seu
poleiro que isso não
é mais necessário, compadre Galo. Venha
aqui para
baixo pra me dar um abraço. Faço questão
de lhe dar um abraço...
- Eu
também, comadre Raposa. Faço questão
de lhe dar um abraço. Desço já. Aliás,
nossa
festa vai ser completa... Estou vendo
daqui de cima dois cachorros perdigueiros,
daqueles que
antigamente caçavam raposas, e que vêm
chegando decerto para abraçar a comadre
também...
- Pode deixar, compadre
Galo. A festa
fica pra outra vez. Lembrei que tenho um
compromisso
e que estou atrasada...
E a raposa ganhou a estrada mais do
que
depressa, sem esperar para ver se era
verdade o
que o galo estava dizendo. E o galo ficou
se rindo no alto da goiabeira, satisfeito
da vida, pois se há
uma coisa divertida é enganar quem é
metido a enganador...
(ROCHA, Ruth. Almanaque da
Ruth Rocha. 1.
Ed. 14 imp. São Paulo : Ática, 2008, p.
32-33.)
TEXTO II
O galo que logrou a
raposa
Um velho galo
matreiro, percebendo a
aproximação da raposa, empoleirou-se numa
árvore. A
raposa, desapontada, murmurou consigo:
“Deixa estar, seu malandro, que já te
curo!...”. E em voz
alta:
- Amigo, venho contar uma grande
novidade: acabou-se a guerra entre os
animais. Lobo e
cordeiro, gavião e pinto, onça e veado,
raposa e galinhas, todos os bichos andam
agora aos beijos,
como namorados. Desça desse poleiro e
venha receber o meu abraço de paz e
amor.
- Muito bem! – exclamou o galo. –
Não
imagina como tal notícia me alegra! Que
beleza vai ficar
o mundo, limpo de guerras, crueldades e
traições! Vou já descer para abraçar a
amiga raposa, mas...
como lá vêm vindo três cachorros, acho bom
esperá-los, para que também eles tomem
parte na
confraternização.
Ao ouvir falar em
cachorro, Dona Raposa
não quis saber de histórias e tratou de
pôr-se ao
fresco, dizendo:
- Infelizmente, amigo
Có-ri-có-có, tenho
pressa e não posso esperar pelos amigos
cães. Fica
para outra vez a festa, sim? Até logo.
E raspou-se.
(LOBATO, Monteiro. Fábulas. São
Paulo :
Globo, 2008, p.34.)