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AS QUESTÕES 1 A 13 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
UM AVISO AOS SEM-VERGONHAS
1 POR QUE TEMOS VERGONHA? No vasto arco que essa palavra abarca, falamos aqui do
2 lado oposto ao do sentimento de inadequação e até de fracasso que provoca tanto sofrimento emocional.
3 Também não vamos entrar no campo do comportamento amoroso, com suas leis próprias. Estamos
4 menos no terreno de Luan Santana ("Manda embora, traz de volta/ Eu não tomo vergonha na cara/ Eu te
5 amo e assumo / Pois você também não vale nada") e mais no de Jonathan Swift ("Nunca me espanto em
6 ver homes fazendo o mal, mas muitas vezes fico espantado em ver que não sentem vergonha'').
7 Os códigos sociais introjetados é que nos fazem honrar a palavra dada, enrubescer quando
8 contamos uma mentira menos benigna e não ocupar a vaga para idosos no estacionamento do shopping.
9 Ou seja, evitar atos que não são punidos por lei, mas que nos constrangem no tribunal de nossa
10 consciência. Quando o mecanismo funciona bem, aproxima-nos das "doces civilidades da vida" e dá um
11 modesto sentimento de satisfação interior. Devido ao bioma sociopolítico em que vivemos, os com
12 vergonha também desenvolveram detectores de sem-vergonhice de alta sensibilidade. Não é apenas a
13 cara de pau, o esgar de desafio e até, no passado recente, o punho erguido com que conhecidos
14 personagens entraram no sistema prisional de Curitiba ou na Papuda. Advogados, assessores e gestores
15 de crise, pela própria natureza de seu trabalho — ou por falta de alternativas —, talvez não se deem
16 conta de que os sensores entram em estado de alerta diante de determinadas expressões.
17 A mais conhecida delas: "Fulano de tal coloca-se à disposição da Justiça para todos os
18 esclarecimentos". Por favor, senhores, não tripudiem. Quem está sob a esfera de qualquer tipo de
19 apuração oficial pode mentir, esconder provas e contratar advogados caríssimos.
20 Mas "colocar-se à disposição da Justiça" não é um ato de bondade ou de pobre voluntarismo.
21 É mandatório.
22 Outra coisa que deixa os com-vergonha arrepiados: "Todas as doações de campanhas eleitorais
23 ocorreram na forma da lei, com as prestações de contas aprovadas pela Justiça". Os tais recursos
24 também costumam ser "lícitos" "fiscalizados", "contabilizados". Praticamente obra de anjos do paraíso.
25 É claro que todas as acusações, investigações e condenações nessa área tratam justamente da
26 transubstanciação de propinas, pagas em troca de contratos de obras públicas, em doações legalizadas,
27 com o custo adicional debitado do bolso de todos os cidadãos brasileiros. E declarar que "não tem
28 conhecimento da suposta captação de recursos ilícitos" é um legalismo com data de validade vencida.
29 Desde a época do impeachment (não aprovado) do presidente Bill Clinton por mentir sob juramento a
30 respeito de suas estrepolias com a estagiária Monica Lewinsky, ficou estabelecido que "não tem
31 conhecimento", "não tem lembrança" ou "a memória não registra" significam "estou encrencado e não
32 quero incidir em perjúrio ou obstrução de Justiça".
33 Por simpatia política pelos acusados, até pessoas honestas e bem-intencionadas desativam seus
34 detectores de sem-vergonhice e endossam a tese de prisões abusivas, promotores descontrolados e juízes
35 ideologizados. "A operação que prendeu o ex-ministro é mais uma operação secreta, no melhor estilo da
36 ditadura militar", disse o conhecido advogado do conhecido ex-ministro presentemente recolhido em
37 Curitiba. A imparcialidade da Justiça realmente é um fundamento do Estado de direito. Para testá-la,
38 basta àqueles que a contestam substituir o nome de figurões que consideram injustiçados pelo do ex
39 presidente da Câmara e mais recente deputado cassado. Se tudo o que já aconteceu e o que ainda está
40 por acontecer com ele for considerado abuso, perseguição política e conspiração da mídia golpista, tudo
41 bem: os denunciantes de boa-fé conquistaram autoridade moral para sua pregação. Já os de má-fé
42 continuarão sapateando sobre nossa cabeça, com declarações ocas e comparações absurdas com a
43 ditadura. Principalmente aqueles que, no passado, achavam Estado de direito coisa de democracia
44 burguesa e, no poder, instauraram uma corrupta e desavergonhada aliança com o capital.
Um aviso aos sem-vergonhas, Vilma Gryzinski. Veja, 12 de outubro de 2016.p.25.
Apenas uma das alternativas permite próclise ou ênclise facultativa:
“Nunca me espanto em ver homes fazendo o mal” (L.5/6).
“Os códigos sociais introjetados é que nos fazem honrar a palavra dada” (L.7).
“Quando o mecanismo funciona bem, aproxima-nos das "doces civilidades da vida" (L.10).
“Para testá-la” (L.37).