Desligue a criança! A desconexão digital em cinco etapas
BEATRIZ LUCAS
- ___Com o desconfinamento, chegou ao
- consultório da psicóloga María Guerrero um
- novo perfil de paciente: crianças que usavam
- muito pouco ou nada as telas e agora não há
- maneira de que façam algo sem elas. Além do
- hábito, María Guerrero está preocupada com as
- consequências para a saúde física e mental.
- “Vários estudos nos falam sobre problemas de
- obesidade, hábitos sedentários com perda de
- massa muscular, perda de visão... Mas também
- pode desencadear ansiedade ou depressão e,
- de acordo com uma experiência realizada pela
- revista americana de pediatria, crianças que
- estão em contato de forma habitual com
- dispositivos móveis, tablets ou computadores
- são mais irritáveis e mostram menos
- capacidade de atenção, memória e
- concentração do que aquelas que não estão”,
- diz Guerrero, que é psicóloga do aplicativo de
- controle parental Qustodio.
- ___Segundo Guerrero, o cérebro de uma
- criança “funciona por hábitos e estes demoram
- cerca de 21 dias para se estabelecer. E a
- tecnologia foi a única via de comunicação e
- lazer durante mais de 100 dias”. Esta
- especialista costuma explicar aos pais que, se
- seu filho está mais preso do que o normal, não
- é que ele seja esquisito, mas é algo comum: “A
- maioria dos jogos, redes sociais e aplicativos
- para crianças foi projetada para que o cérebro
- secrete substâncias relacionadas ao prazer”.
- Mas antes que o leitor se desespere e se deixe
- levar pelo catastrofismo, a psicóloga alerta:
- “Existe um caminho de volta, entretanto não é
- fácil e haverá resistência à mudança”, diz esta
- especialista em novas tecnologias.
- Etapa 1. Calma, seus filhos certamente não
- são viciados em telas
- ___Manuel Bruscas, vice-presidente da área
- de produto do Qustodio, um aplicativo de
- controle parental usado por mais de 50.000
- famílias na Espanha, explica que “Muitas
- crianças notarão que lhes falta algo, as relações
- são construídas com olhares, com empatia, com
- relação física e isso a tela não lhes dá, então é
- aí que devemos provocar o processo de
- desconexão”.
- ___Mas o fato de que as tecnologias sejam
- usadas mais do que antes ou que crianças e
- adolescentes relutem em largar a tela não
- significa que sejam viciados. O psicólogo
- Garicoitz Mendigutxia, diretor do programa
- Suspertu, para a prevenção de dependências do
- Projeto Hombre Navarra, esclarece que, para
- que seja considerada uma dependência, ou
- melhor, um “uso conflitivo das tecnologias”,
- estas devem lhes subtrair tempo e inclusive
- dinheiro de outras atividades da vida. “Deve
- haver situações de isolamento social, afetando
- sua dinâmica de vida ―por exemplo, que a
- família não possa sair para jantar porque o filho
- prefere ficar conectado―, só se relacionam com
- as redes ou têm problemas e conflitos
- familiares ou porque ficam conectados a noite
- toda e isso afeta o desempenho escolar”,
- explica o psicólogo. Se não for esse o caso, o
- plano de ação funcionará mais facilmente.
- Etapa 2. Fale com as crianças e defina os
- limites para a desconexão progressiva
- ___Educadores, psicólogos e especialistas
- em dependência concordam que esses hábitos
- saudáveis devem começar quando as crianças
- passam a ter acesso às telas: é preciso sentar
- para conversar com elas e estabelecer os
- limites de uso, tempos, horários e espaços.
- María Guerrero acredita que é preciso recorrer a
- argumentos científicos e explicar-lhes que as
- telas podem prejudicar a saúde. Os
- especialistas em visão alertaram para um
- agravamento da saúde visual em grande escala
- durante o confinamento e a Fundação Pau Gasol
- afirma que a Espanha é a líder europeia em
- obesidade infantil. O excesso de telas gera
- estresse, irritabilidade, isolamento e
- depressão... E ressalta: “Proibir é inútil, porque
- terão de usar a Internet para estudar, manter
- contato com os colegas... E, quando proibimos
- totalmente algo, impedimos que nossos filhos
- aprendam a estabelecer uma relação saudável e
- isso gera problemas mais graves a longo prazo,
- porque acaba se tornando um objeto de grande
- desejo”.
- Etapa 3. Aqui sim, agora sim
- ___Os especialistas também propõem que os
- espaços e os momentos sejam limitados: “O
- celular ou o tablet deve ser usado em um
- espaço comum da casa, não deve ser usado
- enquanto estivermos com a família nas
- refeições e tampouco deixá-los sozinhos na
- Internet. Devemos estar ao lado deles,
- supervisionando-os”, apontam. Os aplicativos
- de controle parental podem ajudar nesses
- limites: se o dispositivo for desligado, eles não
- culpam os pais e, além disso, as famílias podem
- monitorar o que os filhos veem e conversar com
- eles sobre isso.
- ___Também recomendam estabelecer
- tempos máximos de uso, dependendo da idade.
- Embora Bruscas ressalte que não se trata tanto
- do tempo, mas da qualidade do que veem na
- rede. “Se seu filho é fã de piano ou de
- programação e passa horas assistindo a
- tutoriais online, na realidade está cultivando um
- hobby”, diz.
- Etapa 4. Seja seu modelo
- ___“Somos o que nossos pais nos ensinaram
- quando tentavam não nos ensinar nada”. Esta
- frase do filósofo e escritor Umberto Eco é uma
- das favoritas do educador Francisco Castaño
- para explicar às famílias que passam por seu
- consultório a importância do que mães e pais
- fazem nos processos educacionais. “Os menores
- acabam fazendo o que os adultos fazem. Por
- isso a reflexão e o plano de ação devem ser em
- família e com o compromisso de todos, de pais
- e mães, de preservar espaços sem tecnologia”,
- conclui Castaño.
- Etapa 5. Tempo juntos
- ___Bruscas acredita que as telas nunca
- deveriam “substituir interações ricas com outras
- pessoas, com a família ou com amigos”. Por
- isso propõe compartilhar esportes, passeios,
- atividades ao ar livre, atividades domésticas,
- fazer refeições, tarefas de limpeza, organização
- da casa... “Fazer coisas com elas também lhe
- dá motivo para falar e permite que você se
- aproxime das telas e veja em que seu filho está
- interessado, conheça isso e o questione”, diz
- Mendigutxia, psicólogo do Projeto Hombre
- Navarra.
- ___O psicólogo e fundador da empresa, Joan
- Amorós propõe “uma hora da natureza para
- cada hora de tela”. E em que se baseia essa
- recomendação? “Os ambientes naturais nos
- ajudam a descongestionar a vista e a atenção
- que você presta a um estímulo tão forte e
- conciso quanto a tela. Oferecem estímulos
- suaves, como o mar, as nuvens ou o pôr do sol,
- que atraem a atenção sem que tenhamos de
- estar concentrados e isso permite descansar a
- mente do cansaço produzido pelas telas ou pelo
- trabalho”.
Disponível em: https://brasil.elpais.com/sociedade/2020-
07-18/desligue-a-crianca-a-desconexao-digital-em-cinco-
etapas.html?rel=mas. Acesso em 28/11/2021.
Texto adaptado.