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Texto: COMO MENTIR COM NÚMEROS?
Na eterna querela entre os saberes, os torcedores das ciências ditas "exatas" recorrem com frequência aos números para melhor desqualificar os torcedores das ciências ditas "humanas". Jornalistas, políticos e candidatos empunham números como se fossem armas letais, em geral na forma de estatística. Estatísticas, de fato, são fundamentais para elaborar análises, projetos, soluções, propostas e, enfim, quaisquer redações, mas se manipuladas sem muito cuidado produzem apenas sofismas e mentiras.
O que há em volta de cada conjunto de números? Quem mostra os números? Como ele ou ela chegou a esses números? O que está faltando naquela conta? Essas perguntas fundamentais quem as faz é Darrell Huff, no clássico Como mentir com estatística, de 1954. Estatísticas formadas por enquetes ou censos são afetadas por distorções. Quando um pesquisador consegue 'Observar uma tribo que nunca teve contato com o que chamamos de "civilização", só consegue observar uma tribo que está naquele momento, através dele, tendo contato com a "civilização". Não apenas não existe observação neutra como não há observação que não modifique o que está sendo observado.
Além do problema representado pelo entrevistador ou pesquisador, que precisa ser considerado, temos o problema da amostragem. Nenhuma pesquisa apresenta dados que cubram 100% dos casos, a menos que se pesquise um universo muito reduzido. A maioria das pesquisas se faz por amostragem, como naquelas naquelas que tentam prever o resultado de uma eleição. Para que elas tenham alguma utilidade, é preciso que a amostragem seja ao mesmo tempo suficientemente abrangente e suficientemente representativa.
Assim, deve-se raciocinar caso a caso, em cada argumento estatístico, assim como para discutir qualquer argumento, porque cada caso envolve uma série de variáveis que determinam a qualidade da amostragem ou do raciocínio. Não se pode simplesmente aceitar acriticamente um pensamento só porque ele vem carregado de números e porcentagens. Para aprender a pensar e, portanto, a argumentar, é preciso antes de tudo aprender a duvidar e a questionar, como disse há séculos René Descartes: "duvido, logo, existo" - ou, o que dá na mesma, "penso, logo, existo".
Um artigo numa revista semanal afirma que, caso você sofra um acidente grave, terá uma chance quatro vezes maior d sobreviver se o acidente ocorrer às sete da manhã baseado numa pesquisa estatística que concluiu: fatalidades em estradas ocorrem quatro vezes mais às sete da noite do que às sete da manhã. A pesquisa pode ser verdadeira, mas não permite apenas essa conclusão: podem morrer mais pessoas à noite do que de manhã simplesmente porque mais pessoas estão nas estradas à noite. Podem-se usar estatísticas sobre acidentes para morrer de medo de qualquer meio de transporte, se não notarmos o quanto os números estão mal associados. Se descubro que morreram mais pessoas em acidentes de avião no ano passado do que em 1910, posso concluir que os aviões modernos são muito mais perigosos? Claro que não.
Por isso, é preciso sempre fazer as perguntas fundamentais. A primeira delas: o que há em volta de cada conjunto de numeros? Em outras palavras: qual é o tema e o contexto do argumento? A segunda pergunta: quem mostra os números? Essa pergunta nos faz perceber os interesses envolvidos. A terceira pergunta: como se chegou a esses números? Essa pergunta se desdobra em outras duas: a amostra estatística é grande o bastante para permitir uma conclusão confiável?; a correlação estabelecida é grande o bastante para fazer sentido? A quarta pergunta, talvez a mais importante: o que está faltando nesta conta?
Quando a Universidade John Hopkins passou a aceitar mulheres em suas turmas, logo um homem bastante incomodado com a presença feminina nos cursos superiores, um típico machista, gritou que 33,33% das mulheres de Hopkins haviam se casado com membros do corpo docente, vejam que vergonha. O que não está sendo dito? Que naquele momento havia apenas três alunas matriculadas, e que de fato uma delas se casara com um professor.
Em resumo, é preciso fazer o máximo de perguntas incômodas a cada interlocutor, a cada pesquisa, a cada argumento, justamente para não reproduzir na sociedade o modelo de escola em que "o conteúdo do livro do professor é transferido para o caderno do estudante sem passar pela cabeça de nenhum dos dois".
GUSTAVO BERNARDO
Adaptado de revista.vestibular.uerj.br.
Com base no fragmento a seguir, responda às questões 29 e 30.
Em resumo, é preciso fazer o máximo de perguntas incômodas a cada interlocutor, a cada pesquisa, a cada argumento (8° parágrafo)
A oração sublinhada é classificada como subordinada substantiva do seguinte tipo:
subjetiva
predicativa
objetiva indireta
completiva nominal