Mateus, 7 anos, vive com a mãe, Carolina, de 34 anos e a...
Mateus, 7 anos, vive com a mãe, Carolina, de 34 anos e a avó, em um “barraco” de alvenaria na periferia de Campinas. Carolina trabalha como auxiliar de limpeza em dois empregos, sai de casa cedo e retorna à noite. É ela quem sustenta a família praticamente sozinha, pois Roberto, o pai, de 38 anos, motorista de aplicativo, aparece de vez em quando. Quando vem, traz críticas e frases ríspidas sobre o filho, dizendo que “precisa aprender a ser homem”. A relação com o pai é marcada por medo e recusa: Mateus se esconde no quarto quando ele chega.
Mateus começou a falar tarde, repete frases de desenhos animados dos quais passa horas assistindo e ouve músicas de forma constante. Não gosta de ser tocado sem aviso e reage de forma explosiva a barulhos fortes. Seu olhar é esquivo e na escola a convivência é difícil. Participa pouco das atividades, costuma se isolar e quando é pressionado a interagir, reage com choro, gritos ou até agressivamente. Em uma ocasião, bateu na professora que insistia para que se juntasse ao grupo. A direção da escola já cogitou transferi-lo para uma classe especial. Com frequência, a professora percebe hematomas no corpo de menino e a mãe, ao ser questionada, conta que não sabe dizer, mas que acredita ser a avó quem o agride, por não lidar com a situação.
Em casa, Mateus passa a maior parte do tempo com ela, Dona Lourdes, de 63 anos, que é evangélica e acredita que o neto sofre de ataques espirituais. Ela o leva constantemente a cultos de oração e insiste que “a fé vai curar o menino”.
No território, a UBS já tentou algumas aproximações. A equipe de Estratégia Saúde da Família realizou visitas domiciliares e identificou sinais de vulnerabilidade: poucos brinquedos adequados, rotina desorganizada, alimentação precária. Uma psicóloga orientou o encaminhamento ao CAPSij, mas Carolina tem dificuldade em levar o filho, pois os horários de atendimento coincidem com seus turnos de trabalho. Até agora, o vínculo com o serviço não se consolidou.
Mateus, por sua vez, vai se fechando cada vez mais. Nos últimos meses, as crises de autoagressão se intensificaram: bate a cabeça na parede, arranha os braços e recusa comida em alguns dias. Carolina teme que o filho seja excluído da escola, mas também não sabe como reorganizar a vida para garantir o cuidado.
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