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- Q3568639
Analise, do ponto de vista psicodinâmico, a experiência do...
ESTUDO DE CASO
ANALISE O CASO DESCRITO PARA RESPONDER ÀS QUESTÕES DISSERTATIVAS DE 01 A 03.
João, 50 anos, mora em Caieiras junto a sua esposa Lúcia, com quem está casado há 25 anos, tem dois filhos (Paulo, de 24 anos, e Mauro, de 21 anos). Possui ensino fundamental completo e trabalha como pedreiro há 35 anos. Há três meses começou a passar muito mal e a ter dores muito fortes na região torácica. Os filhos o levaram imediatamente ao pronto-socorro de um hospital geral na capital de São Paulo, onde o pai já fazia acompanhamento com cardiologista, por apresentar uma arritmia complexa, diagnosticada há cerca de 1 ano. O paciente, mesmo fazendo esse acompanhamento, não conseguia ter boa adesão ao tratamento. Não fazia uso correto das medicações prescritas, continuava fumando muito (dois maços por dia) e bebia todos os fins de semana, o que prejudicava sua melhora.
Ao ser atendido no pronto-socorro, logo foi constatado que tinha acabado de ter um infarto agudo do miocárdio. João foi então encaminhado para a UTI, para o devido monitoramento de seu quadro de saúde. Em seguida, o cardiologista responsável pelo seu caso identificou a necessidade de ser implantado um Cardioversor Desfribilador Implantável (CDI), para prevenir o risco de morte súbita. Explicou ao paciente que esse dispositivo propicia o monitoramento frequente do ritmo cardíaco e dispara descargas elétricas corretivas quando necessário. Quando é detectada uma arritmia potencialmente fatal, esse dispositivo emite uma descarga elétrica muito potente para poder revertê-la e que, nesse caso, João iria perceber esse disparo como uma forte pancada no peito. Ao ouvir essas explicações, João ficou descompensado emocionalmente. Muito agitado, chorou muito e disse que preferia morrer a ter que passar por isso.
Após atendê-lo, o médico solicitou atendimento psicológico de urgência para João. A psicóloga da equipe cardiológica atendeu o paciente, escutou atentamente seu relato e, considerando seu sofrimento e questionamentos, pôde lhe oferecer suporte e acolhimento emocional. Diante da ansiedade e desespero do paciente, a psicóloga considerou necessário atendê-lo diariamente enquanto estivesse internado. João concordou em ser atendido, pois sentiu-se seguro e compreendido pela profissional. Comentou com ela que se sentiu incompreendido pelo médico, não lhe dando tempo de se acostumar com tudo aquilo. Após esse contato com a psicóloga, embora ainda impactado pela notícia do médico, o paciente e sua família concordaram com a realização do implante do CDI, porque queriam, acima de tudo, preservar a sua vida. No dia seguinte, a psicóloga reuniu-se com a equipe responsável pelo tratamento de João, incluindo o médico, com o objetivo de passar informações importantes para a compreensão do caso e para discutir a melhor abordagem a ser adotada com o paciente e sua família naquele momento crítico.
A cirurgia para o implante foi bem-sucedida. Entretanto, após a alta hospitalar, João, que antes era uma pessoa muito ativa, animada e interessada pela vida, passou a sentir uma tristeza e um desânimo profundos. Desenvolveu um medo intenso de sentir a forte pancada em seu peito a qualquer momento, como o médico havia lhe dito, o que significaria estar prestes a morrer e, ao mesmo tempo, ser ressuscitado por um choque elétrico disparado por um aparelho dentro de seu corpo. Com tudo isso, João não conseguia afastar-se da ideia de morte. Além do medo da morte, João tinha muito medo de sentir a dor provocada pelos choques.
Essa experiência levou João a paralisar diante de sua vida. Recusava-se a levantar da cama e evitava qualquer tipo de movimento que julgasse desnecessário, suspendendo todas as suas atividades habituais. Passou a apresentar crises intensas de ansiedade, principalmente quando sentia que seus batimentos cardíacos estavam irregulares. Apresentava forte e constante tensão, porque ficava na expectativa do choque elétrico ou vivia preocupado com um possível mau funcionamento do dispositivo, porque o médico havia explicado que isso poderia acontecer também. Dessa forma, a incerteza sobre seu futuro era uma constante e, por isso, não conseguia mais fazer planos para sua vida e a de sua família, como sempre costumava fazer antes de adoecer.
O relacionamento familiar, que antes era bom, passou por mudanças importantes. João tornou-se amargo e ríspido com a esposa e seus filhos. Como evitava fazer qualquer atividade, fazia solicitações o tempo todo e passou a depender deles para tudo. A família, principalmente sua esposa, que a princípio procurava compreendê-lo, começou a ficar muito estressada e sobrecarregada física e emocionalmente. Além disso, devido ao comportamento de João e ao seu afastamento do trabalho, começaram a enfrentar restrições e perdas de ordem afetiva, financeira e social. Por ocasião de seu retorno hospitalar, a psicóloga identificou estas questões ocorridas após a alta do paciente e, por esse motivo, indicou a manutenção da psicoterapia na modalidade de telepsicologia, devido à distância da sua moradia e porque o paciente não queria se expor ao esforço físico indo até o hospital semanalmente. João concordou com o atendimento, desde que fosse realizado por ela.
Analise, do ponto de vista psicodinâmico, a experiência do paciente relacionada ao implante do CDI. Quais aspectos emocionais e recursos psíquicos precisam ser considerados, a fim de se ter uma visão mais ampla e profunda do paciente e assim poder intervir da melhor forma possível.