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Texto II
Viagem
Que emoção, leitor! A crônica que ocuparia este
espaço já estava pronta quando, folheando uma velha
edição de A Cidade e a Roça, de Rubem Braga, dei de
cara com aquele que, na minha mitologia íntima, foi o
5 primeiro texto que me emocionou de fato!
Eu devia ter uns dez anos e entrara na moda a
Matemática Moderna e a Interpretação de Textos - dois
avanços pedagógicos que pais e alunos olharam com
desconfiança porque, no fundo, sabíamos, vinham abrir
10 ainda mais o abismo de gerações que os separava.
Enfim, eu tinha nove, dez anos e eis que, numa
prova de Português, surge o item já então inevitável:
Interpretação de Texto. E, logo abaixo, seguia um bloco
de letras intimidador que, no entanto, para minha surpresa,
15 me acolheria com suas palavras talvez um pouco tristes,
mas carregadas de amor e esperança. (Mais ou menos
como, dizem, era o próprio Rubem: fechado e monolítico
em aparência, mas com uma alma de navio ...).
Falo em navio, mas era de avião que tratava o
20 texto. Este texto. Sim, este – sobre uma curta viagem
de avião de São Paulo ao Rio em que o autor enfrentara
o mau tempo e o contava de um modo que o menino
não sabia ainda nomear, mas que o comovia
tão profundamente que naquele momento ele, o menino,
25 já sentia que seria para sempre. (...)
Ah! Rubem ... E mesmo ainda, quando céu e
chão me faltam e vago, frio, por meus escuros, é em teu
lirismo que busco abrigo, mesmo que ainda ele soe falso
em mim como um casaco comprado de segunda mão,
30 mas que insistimos em usar porque imaginamos que
ele nos faz mais elegantes. (...)
Antônio Caetano. Disponível em: http://www.cafeimpresso.com.br/ Cronicas/2001/120201.htm
Texto I
A outra noite
Outro dia fui a São Paulo e resolvi voltar à noite,
uma noite de vento sul e chuva, tanto lá como aqui.
Quando vinha para casa de táxi, encontrei um amigo e o
trouxe até Copacabana; e contei a ele que lá em cima,
5 além das nuvens, estava um luar lindo, de lua cheia; e
que as nuvens feias que cobriam a cidade eram, vistas
de cima, enluaradas, colchões de sonho, alvas, uma
paisagem irreal.
Depois que o meu amigo desceu do carro, o chofer
10 aproveitou um sinal fechado para voltar-se para mim:
— O senhor vai desculpar, eu estava aqui a ouvir
sua conversa. Mas, tem mesmo luar lá em cima?
Confirmei: sim, acima da nossa noite preta e
enlamaçada e torpe havia uma outra — pura, perfeita e
15 linda.
— Mas, que coisa ...
Ele chegou a pôr a cabeça fora do carro para
olhar o céu fechado de chuva. Depois continuou guiando mais
lentamente. Não sei se sonhava em ser aviador ou
20 pensava em outra coisa.
— Ora, sim senhor ...
E, quando saltei e paguei a corrida, ele me disse
um “boa noite” e um “muito obrigado ao senhor” tão
sinceros, tão veementes, como se eu lhe tivesse feito
25 um presente de rei.
Rubem Braga. Disponível em: www.eagorajose.kit.net/estilos/ croanoitebraga.htm. Acesso em 04/01/07
"— Mas, que coisa ..." (l. 16 - Texto I)
"Ah! Rubem ..." (l. 26 - Texto II)
Nos fragmentos acima, o emprego das reticências transmite, respectivamente, as idéias, de:
oposição e rivalidade.
dúvida e desesperança.
hesitação e antagonismo.
perplexidade e cumplicidade.
ambivalência e complacência.