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Sobre o trecho que segue, todas as considerações se...

A vida em cliques


Era uma vidinha monótona sem perspectivas: medíocre emprego numa empresa, as conversas inconseqüentes com os amigos, o trânsito congestionado. Mas aí ele voltava para casa e podia, enfim, viver uma aventura.

Na Internet, claro. Navegador infatigável, percorrera um território humano desconhecido e às vezes inquietante, até encontrá-la, primeiro em uma sala de bate-papo, depois em mensagens privadas. Conhecia-a apenas por Solly (Solitária?) e pouco sabia de sua vida. Mas eram, sim, almas-irmãs. Partilhavam os mesmos gostos, as mesmas inquietudes, as mesmas secretas aspirações. E ficavam horas trocando mensagens.

Quem não gostava, naturalmente, era a mulher. Estavam casados havia oito anos, não tinham filhos. Ela também trabalhava, claro – como sustentar uma casa e a Internet , com um emprego só? - e também tinha o seu quinhão de amargura. Que despejava no marido: você fica aí nessa Internet e não dá bola pra mim, não tenho com quem falar. Por isso, quando ela chegava do emprego, lá pelas dez da noite, ele tinha de precipitadamente desligar o computador. Clique: lá se ia a Solly. Lá se ia a única pessoa que para ele tinha importância.

Ah, se pudesse fazer o mesmo com a mulher. Se houvesse um dispositivo eletrônico capaz de fazer as criaturas sumirem... Tudo o que ele teria de fazer era dar um clique, e pronto, a incômoda esposa estaria deletada de sua existência.

Momentaneamente, claro. Porque a verdade é que não podia viver sem ela. Acostumara-se, pronto, sentia falta dela. De modo que seu dispositivo eletrônico permitira que, quando necessário, ele a acessasse. Seria a vida perfeita.

Seria? Não. Porque numa dessas vezes a mulher retornaria do ciberespaço com um vírus qualquer. Um vírus que a faria, por exemplo, muito atraente aos olhos do vizinho do lado. Ou seja: um vírus que tornaria a sua vida incompreensível, infernal. Nem tudo, infelizmente, se resolve por cliques.

(Moacyr Scliar, Folha de S. Paulo, Cotidiano, 04/2000)


Sobre o trecho que segue, todas as considerações se apresentam adequa-das, EXCETO:

Ah, se pudesse fazer o mesmo com a mulher. Se houvesse um dispositivo eletrônico capaz de fazer as criaturas sumirem... Tudo o que ele teria de fazer era dar um clique, e pronto, a incômoda esposa estaria deletada de sua existência.


A

A voz que se anuncia nesse trecho é a do narrador através da qual se deixa revelar um suposto desejo da personagem (o marido).


B

A voz que se anuncia no trecho é a do narrador que deixa revelar um suposto desejo que ele próprio gostaria de que fosse realizado pela personagem (o marido).


C

A expressão "e pronto" encarna um sentido equivalente ao de "resolvido o suposto problema", o qual é assim descrito: a incômoda esposa estaria deletada de sua existência


D

As formas verbais - se pudesse fazer o mesmo com a mulher; se houvesse um dispositivo eletrônico - exprimem um fato hipotético e irreal que se definem como condições para efetivar o suposto desejo: o sumiço da mulher.