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Não somos capazes de formar uma ideia correta do sabor de um abacaxi sem tê-lo realment...

Não somos capazes de formar uma ideia correta do sabor de um abacaxi sem tê-lo realmente provado. Existe, entretanto, um fenômeno que parece contradizer isso, e que poderia provar que não é absolutamente impossível que as ideias antecedam suas impressões correspondentes. Suponhamos, assim, uma pessoa que tenha gozado de sua visão durante trinta anos e tenha-se familiarizado perfeitamente com todos os tipos de cores, exceto com uma única tonalidade de azul. Pergunto, então, se lhe é possível suprir tal deficiência por meio de sua própria imaginação. Acredito que poucos discordarão de que isso seja possível. Esse exemplo pode servir como prova de que as ideias simples nem sempre derivam das impressões correspondentes – embora o caso seja tão particular e singular que quase não é digno de nossa atenção, não merecendo que, apenas por sua causa, alteremos nossa máxima geral.


(David Hume. Tratado da natureza humana, 2009. Adaptado)


No trecho, Hume introduz o célebre “tom de azul ausente”. À luz desse recurso, conclui-se que, para o filósofo, o episódio serve para


A

trocar a dependência empírica por uma justificação a priori das operações da mente.


B

sustentar a presença de conteúdos originários independentes da experiência sensível.


C

igualar, no plano do método, ideias e impressões, eliminando a anterioridade destas últimas.


D

ilustrar uma anomalia metodológica que exige refinar a tese da cópia sem abdicar de sua primazia.


E

atribuir à imaginação um papel constitutivo que dispensa a experiência como fundamento do conteúdo mental.