“As Madres de Plaza de Mayo rejeitam exumações porque nossos filhos não são cadáveres. Nossos filhos desapareceram fisicamente, mas vivem na luta, nos ideais e no compromisso de todos aqueles que lutam pela justiça e pela liberdade de seu povo. Os restos de nossos filhos devem ficar onde eles caíram. Não há túmulos para enterrar um revolucionário. Um punhado de ossos não os identifica porque eles são sonhos, esperanças e exemplos para as gerações vindouras.”
A partir da leitura do trecho do manifesto citado por Bevernage (2018, p. 84), “Nuestras Consignas”, tornado público pelas Madres de Plaza de Mayo, grupo de mães argentinas, que surgiu em 1977, logo após o golpe militar no país e do início da primeira onda de desaparecimentos, para organizar a busca de seus filhos e filhas e dar voz ao seu protesto, é possível perceber a reivindicação de um novo conceito de tempo histórico. Segundo elas, o que pretendiam
era estabelecer “julgamentos pela verdade” que, mesmo que não produzissem um tipo de processo judicial que levaria à condenação dos militares envolvidos no desaparecimento de seus filhos, ao menos procurassem a verdade.
era oferecer a receita de uma “memória fértil” para lutar contra o esquecimento, considerando o valor da vida como supremo, assegurando a reabilitação dos desaparecidos como ativistas e tentando construir pontes para novas gerações solidárias aos militantes.
era mostrar que, apesar do tempo histórico ter de fato um caráter de irreversibilidade, ao ser impossível trazer seus filhos de volta, as reparações econômicas, além das punições aos responsáveis pelos seus desaparecimentos, são elementos para se se alcançar a justiça.
era corroborar com o discurso de encerramento e conciliação nacional preconizado no processo de redemocratização da Argentina pelo presidente Raul Alfosín, cuja política de direitos humanos ao mesmo tempo em que cumpria seu papel anulando a autoanistia dos militares, orientava-se para o futuro.
era resgatar, como chamavam, uma “memória da morte” ou “memória de cemitérios”, que encerraria a questão dos desparecidos ao reconhecer o óbito de seus filhos, e que os transformassem em mártires e exemplo para todas as gerações de militantes futuras.