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Em 1909, quando parecia próxima a ligação ferroviária, algumas pessoas em Diamantina, MG, começaram a refletir sobre o impacto que aquele fato teria sobre a vida na cidade. O trecho de jornal abaixo representa essa inquietação:
Todo o dia, ao arfar das caldeiras, o trem despejará uma onda de povo estranha nas estreitas ruas da velha e tradicional cidade, e do interior, procurando o caminho da costa, olhos admirados, corações satisfeitos e medrosos, os velhos e as crianças virão ver, pela primeira vez, o progresso invadindo o sertão solitário. Transformar-se-á o aspecto da cidade, mudará o seu vocabulário: e cada dia, com pedreiros e carpinteiros importados, irá perdendo o que lhe resta ainda do pitoresco, o ar dos bons tempos primitivos. [...] O próprio comércio, modificando antigos hábitos, aos ruídos constantes das manobras e ao sabor das notícias trazidas através de léguas e léguas, de todos os lugares, perderá o seu feitio local. Nada ficará sem sofrer a influência estranha desse progresso que chega. [...] O progresso tem isso. Pelo bem que nos traz nos priva de muita coisa boa. (jornal A Idéa Nova, Diamantina, 01 ago.1909)
Sobre a relação entre a tecnologia e a sociedade após a revolução industrial muito se escreveu. Atente aos trechos seguintes:
I. Dois desenvolvimentos tecnológicos foram cruciais para que as ferrovias chegassem ao evento monumental de 1883 [a padronização da hora nos EUA]: melhorias nos relógios de bolso e sua venda em massa, bem como o uso do telégrafo para coordenar a hora. Com a introdução, em 1880, do Waterbury, o primeiro relógio verdadeiramente barato, os primeiros anos da década viram a sociedade americana permeada, como nunca antes, por hábitos derivados do relógio à mão, uma moda promovida em parte pela Sears & Roebuck. (KIRBY, Lynne, Parallel Tracks: the railroad and silent cinema. Durham, Duke University Press, p. 51)
II. O que é descrito como progresso nas sociedades modernas é, na verdade, sinônimo, em larga amplitude, de uma série de medidas provocadas pelo capital industrial. Entre os benefícios estão mais alimentos, melhores transportes e maior abundância de bens. Mas é uma peculiaridade do capitalismo que cada inovação benéfica traga também uma sequência de outras mudanças, nem todas desejadas pela maioria das pessoas, de tal modo que, em nome do progresso, somos obrigados a aceitar uma grande quantidade de novidades a ele relacionadas e possivelmente indesejadas. [...] A ideia de progresso, no entanto, inclui todas as mudanças, tanto desejáveis como indesejáveis. (FORTY, Adrian. Objetos de Desejo: design e sociedade desde 1750. São Paulo, Cosac Naify, 2013, p. 19)
III. A capacidade produtiva não só aumentou de forma exponencial, como colocou ao alcance de várias camadas populacionais novos produtos de origem industrial, fabricados em larga escala. E não foram apenas produtos sofisticados [...], mas os de consumo popular como escova de dentes, dentifrício, papel higiênico, comidas enlatadas, cervejas engarrafadas, sabão em pó e uma infinidade de artigos que favoreceram a propagação de novos hábitos e valores. (NAGAMINI, Marilda. 1889-1930: Ciência e Tecnologia nos processos de urbanização e industrialização. IN: MOTOYAMA, Shozo (org.) Prelúdio para uma História: Ciência e Tecnologia no Brasil. São Paulo, EDUSP, 2004, p. 194-5)
IV. Mas não coincidem as combinações econômicas e as tecnológicas, as primeiras ligadas às necessidades e meios existentes, as últimas, à ideia básica dos métodos. O objetivo da produção tecnológica é na verdade determinado pelo sistema econômico; a tecnologia só desenvolve métodos produtivos para bens procurados. A realidade econômica não executa necessariamente os métodos até que cheguem à sua conclusão lógica com inteireza tecnológica, mas subordina sua execução a pontos de vista econômicos. O ideal tecnológico, que não leva em conta as condições econômicas, é modificado. A lógica econômica prevalece sobre a tecnológica. (SCHUMPETER, J. A. Teoria do Desenvolvimento Econômico. Uma investigação sobre lucros, capital, crédito, juro e o ciclo econômico. São Paulo, Círculo do Livro, 1997 p. 32-33)
As citações que abordam as preocupações do texto diamantinense são:
I e II.
I e III.
II e III.
II e IV.
III e IV.