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“Tudo valia dinheiro. Os postos militares que garantiam a polícia dos campos e ali pree...

“Tudo valia dinheiro. Os postos militares que garantiam a polícia dos campos e ali preenchiam as funções administrativas faziam os povoados votarem-lhe gratificações. Todo funcionário dava um jeito para lhe molharem a mão a fim de executar a menor tarefa; (...) as propinas acabaram sendo oficialmente tabeladas e o preço de cada etapa foi afixado nos escritórios. Os administradores tinham o cuidado de apresentar-se diante de um funcionário ou de um alto dignitário com um presente na mão; afinal, tratava-se de reconhecer com um símbolo substancial a superioridade dos chefes sobre os comandados. (...) (...) Exigir pagamentos ilegais constituía o grande negócio dos governadores de província, que compravam o silêncio dos inspetores imperiais e dividiam os lucros com seus oficiais e chefes de departamento. O poder central fazia vista grossa, bastava-lhe receber sua parte. (..) um romano enriquecia em parte à custa dos cofres públicos. Quanto ao resto, além das extorsões, o governador negociava; o último século antes de nossa era viu os negociantes italianos apoderarem-se de todas as posições econômicas no Oriente grego com a ajuda interessada dos governadores ali estabelecidos.” [VEYNE, Paul. O Império Romano. In: _______ (org.). História da vida privada – Do Império Romano ao ano mil. trad.Hildegard Feist. São Paulo: Companhia das Letras, 1989, vol. I, p. 106-7.]


O texto acima retrata certas ações e práticas da elite política e militar romana, à época do Império, que evidenciavam como as diversas instâncias do poder público eram permeáveis a interesses econômicos que, não inscritos em lei, garantiam o funcionamento das instituições por meio de um código de enriquecimento que transitava pelo poder privado, tendo em vista legitimar relações de domínio no âmbito de uma sociedade escravista.


A respeito das articulações entre as relações de poder, as determinações sócio-econômicas e a crise do IIIº século, é possível demonstrar:


A

se, a princípio, as práticas de corrupção entre membros do poder público e homens de negócios garantiram o funcionamento das instituições imperiais resultaram em uma anarquia que se abateu sobre o Exército e o Senado romanos, destruindo o poder diárquico que sustentava o Império


B

a crise do IIIº século foi uma crise eminentemente político-militar, cujas raízes remontavam à corrupção e ao clientelismo que sempre caracterizaram o exercício do poder em Roma, uma vez que a economia urbana e escravista estava no auge, fomentando um enorme afluxo de riquezas das províncias para a península


C

a carência de mão-de-obra, a perda de autonomia das províncias e o aumento da tributação foram elementos que contribuíram para o esgotamento da crise da economia escravista romana, gerando a falência dos grandes proprietários no campo, reforçando o papel econômico das cidades e consolidando as atividades ligadas ao comércio e ao artesanato em detrimento da agricultura praticada na latifúndia romana.


D

a "Pax Romana" marcou o fim das conquistas romanas, tendo em vista assegurar as fronteiras ocidentais e orientais do Império sob a mira dos povos germânicos; porém, interrompeu a fonte regular abastecedora de mão-de-obra, golpeando o escravismo antigo e determinando uma crise catastrófica da economia urbana


E

a constante necessidade de fortificação e militarização das fronteiras do Império Romano foi um elemento determinante para explicar a crise do IIIº século porque a ampliação do efetivo do Exército estimulou práticas de propina entre seus membros, principalmente entre as legiões, desencadeando a indisciplina e a desorganização do poder militar