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Imagino qual não teria sido a surpresa causada por um rinoceronte em plena Europa do século
XVI. O ganda foi dado de presente pelo Sultão de Cambaia ao Vice-Rei da Índia, que o repassou
ao Rei Dom Manuel I que, por sua vez, quis dá-lo de presente para o Papa Leão X. Durante a
festa da Santíssima Trindade de 1515, Dom Manuel organizou, em plena Lisboa, o combate entre
5 um de seus elefantes e o rinoceronte. O elefante, ao enxergar o rinoceronte, fugiu em desabalada
carreira, levando tudo e todos por diante. Resultado do combate: o ganda foi aclamado vencedor.
E de Lisboa se irradiou a narrativa que converteu o rinoceronte em patrono da boa blindagem e da
bravura dos militares.
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Após o espetáculo, o rinoceronte foi enviado ao Papa, mas a embarcação que o levava naufragou na
10 costa da Itália. Do pobre ganda só sobraram histórias. O pintor Albrecht Dürer, sem jamais ter visto
o rinoceronte, o desenhou em 1515, acrescentando detalhes insólitos como um chifre no dorso,
carapaças de crustáceo e escamas de réptil nas patas. Esta obra fixa a aparência de um rinoceronte
até fins do século XVIII.
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A admiração estética é com frequência provocada pelo ineditismo. A nomeação do desconhecido
15 opera para torná-lo assimilável a um entendimento que procura recobrar-se de uma comoção. Os
efeitos angustiantes do inusitado são tranquilizados por um nome. Entretanto, a ânsia de assimilação
do extraordinário ao rotineiro leva a tropeços classificatórios. Algo semelhante se passou no século
XIII com Marco Polo quando, em Java, ele se deparou com um rinoceronte e relatou então ter visto
um unicórnio, lamentando porém que ele fosse tão feio e agressivo, muito mais próximo de um
20 grande búfalo do que de um cavalo, com patas de elefante, pelagem de búfalo e cabeça de javali.
Na classificação e na nomeação de um ente, muitas vezes somos levados a distorcer seus atributos
constitutivos indispensáveis, exatamente aqueles que fazem de uma coisa ela mesma e não outra,
segundo o princípio aristotélico da identidade: A=A.
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Há uma espécie de resistência mental em se abrir uma nova rubrica no nosso esquema compreensivo
25 movido por estoques de analogias, assim como uma certa relutância em se perceber o inédito a partir
dele mesmo, da sua singularidade ou excepcionalidade. Ver, interpretar, descrever e nomear não
são atos mentais automáticos e dependentes de alguma verdade substancial, mas sim construções
conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem.
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MARCUS FABIANO GONÇALVES
Adaptado de insightinteligencia.com.br.
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COM BASE NO TRECHO A SEGUIR, RESPONDA ÀS QUESTÕES 07, 08 E 09.
Ver, interpretar, descrever e nomear não são atos mentais automáticos e dependentes de alguma verdade substancial, mas sim construções conjecturais da precária relação entre o mundo e a linguagem. (l. 26-28)
Imagine-se olhando para um mapa da Europa, sem nenhuma indicação nele, com exceção da cidade de Viena, perto do centro, e, ao norte dela, a cidade de Berlim. Onde você localizaria as cidades de Praga e Budapeste? Para a maioria das pessoas que nasceram depois da Segunda Guerra Mundial, ambas as cidades pertencem ao leste Europeu, enquanto Viena pertence ao oeste e, consequentemente, tanto Praga como Budapeste deveriam ser localizadas a leste de Viena. Mas olhe agora o mapa da Europa e veja a localização real dessas duas cidades. Budapeste, com certeza, está afastada ao leste, bem abaixo de Viena, ao longo do Danúbio. Mas Praga está, na verdade, mais a oeste do que Viena.
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Adaptado de MOSCOVICI, S. Representações sociais: investigações em psicologia social. Petrópolis: Vozes, 2003.
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Adaptado de mediateca.educa.madrid.org.
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A partir do trecho destacado do texto base e do exercício hipotético proposto nos anos de 1960 pelo psicólogo social Serge Moscovici, observa-se que certa subjetividade afetou a interpretação e a nomeação do espaço europeu.
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Essa subjetividade é explicada por:
orientação interligada a ponto cardeal invertido
regionalização associada a contexto geopolítico singular
territorialidade conectada a fronteiras nacionais imutáveis
mapeamento vinculado a coordenadas cartográficas equivocadas