Instrução: As questões 01 a 08 referem-se ao texto abaixo.
- ____ Tanta coisa feia, suja e malvada acontecendo que,
- às vezes, dá vontade de esquecer de tudo. Nem que
- seja por duas horas. Isso a gente consegue com um
- livro – mas só de noite, no conforto do lar e deixando
- o celular no silencioso para não se deixar seduzir por
- avisos de mensagens que nunca, nem por um segundo,
- param de entrar. Assim como a aventura humana pode
- ser dividida em antes e depois da invenção da poltrona,
- nas palavras de Millôr Fernandes, o poder de concen-
- tração do homem está dividido em antes e depois
- das redes sociais. Dom Casmurro, a chegada à
- Lua, a própria internet: para nossa sorte, tudo aconteceu antes
- do Instagram e do Facebook. Se fosse agora, talvez
- Marie Curie parasse para uma selfie bem no instante
- de isolar os elementos, ou Proust procrastinasse
- com posts bem-humorados diante da dificuldade de
- escrever milhares de páginas. Sabe-se lá o que seria
- da civilização.
- ____ Existem dois territórios em que desligar o telefone
- é sagrado – se não por vontade do usuário, para não
- tomar uma vaia dos demais presentes. No teatro e no
- cinema, celulares e seus vícios deveriam ficar no fundo
- do bolso e da bolsa. Não que volta e meia a luz de uma
- tela não perturbe o escuro. Pior: que o som de uma
- chamada não interrompa a cerimônia do espetáculo.
- “Não posso falar agora, liga mais tarde. (…) O quê?
- Depois a gente conversa, só vê se a Julinha tem ração
- e dá um beijo no Rex, quer dizer, dá um beijo na Julinha
- e vê se o Rex tem ração. (…) Beijo, te ligo na saída.”
- ____ Mas o assunto deste texto é o prazer de esquecer
- da vida assistindo a um filme. Aqui entra o Festival de
- Cinema do Rio, que acabou na semana passada depois
- de dez dias e dezenas de filmes exibidos por módicos
- onze reais a cada sessão. Em Porto Alegre também tem
- disso. O Capitólio, o Santander, a Casa de Cultura Mario
- Quintana e mostras como o Fantaspoa e Ela na Tela,
- que começa neste final de semana e vai até 25 de
- outubro, trazem muitas joias a preços populares para
- a cidade – quando não no amor. E por amor.
- ____ Entre os tantos filmes do Festival do Rio, dois que
- gostaria de recomendar. O primeiro tem irritado cinéfilos
- mais xiitas por se tratar de uma cinebiografia bem-humo-
- rada demais, talvez, de Jean-Luc Godard. Azar o deles.
- O Formidável, do diretor Michel Hazanavicius, que já
- ganhou o Oscar por O Artista, é muito bom. Se é que
- viu, Godard odiou. O filme trata do período em que,
- depois de filmar A Chinesa, Godard, aos 37 anos, casa
- com a atriz Anne Wiazemsky, então com 19, autora do
- livro que serviu de base para o roteiro. De charmoso e
- irresistível, nas palavras de Anne, ele vira um chato de
- galochas (embora com seus encantos) ao abraçar o
- maoísmo e renegar seus filmes anteriores. O Formidável
- reconstitui as passeatas de maio de 68 em Paris, faz
- referências ao modo de Godard filmar, é irônico na
- medida e traz um sensacional protagonista, o ator
- Louis Garrel. É um filme para sair feliz do cinema,
- exatamente a sensação que o mestre não queria
- proporcionar a seus espectadores. E mais não conto
- para não dar spoiler.
- ____ O segundo filme é O Artista do Desastre. O espec-
- tador ri até sem querer da reconstituição do “Cidadão
- Kane dos filmes ruins”, The Room. James Franco faz o
- papel de diretor do pior filme do mundo – e também é
- o diretor e produtor na vida real. Indo para casa de
- metrô, só tinha um pensamento: que bom vencer a
- preguiça e sair de casa em um domingo frio e chuvoso
- para ser feliz por duas horas.
Adaptado de: TAJES, Claudia. Cinema também é resistência. Zero Hora, Caderno Donna, Porto Alegre, 24 de outubro de 2017. Disponível em http://revistadonna.clicrbs.com.br/ coluna/claudia-tajes-cinema-tambem-e-resistencia/. Acesso em 12/05/2018.