Instrução: As questões 09 a 16 referem-se ao texto abaixo.
- ______ Encontro, pelos corredores da vida, um grupo de
- ex-alunos. A primeira reação é sempre de um agradável
- afeto, o mesmo afeto de reencontrar um pedaço de si,
- no outro. Talvez lembrar seja sempre um exercício de
- reconhecimento de si próprio: enxergar, em um amor
- de infância, em um sabor perdido, em uma paisagem
- – ou num professor – um espelho de seus melhores dias.
- ______Reencontramo-nos e logo percebemos que ninguém,
- nem eu nem eles, lembrava do nome da matéria em
- que nos frequentamos. No espelho dos melhores dias,
- eles não viam mais conteúdos elementares, datas (de
- que ano é a prensa de Gutenberg?), conceitos (o que
- é um nariz de cera), nomes (quem escreveu “Frank
- Sinatra está Resfriado”e “As Religiões no Rio”?) e por
- aí vai, numa extensa lista de sujeitos e predicados.
- ______Não é que não lembrem de nada, é claro, nem que
- a matéria tenha sido toda inútil. Longe disso, pois todos
- lembravam com carinho das antigas aulas – e lembrar
- com carinho já é muito melhor do que recitar a velha
- decoreba da tabela periódica.
- ______Mas lembram de outras coisas. Lembram dos poemas
- e das histórias, lembram dos afetos.
- ______– Professor, e os poemas?
- ______– Professor, e a história do macaco?
- ______Estou convicto de uma obviedade. As obviedades
- são, aliás, as verdades mais duras de reconhecer –
- estão tão coladas aos nossos narizes que se tornam
- invisíveis. Estou certo de que contar histórias, boas
- histórias, é o mais formidável meio para ensinar, ou
- aprender, qualquer coisa. Por isso, insista com as
- historinhas antes de dormir: do primeiro ao último mês
- de vida (até a morrer é preciso aprender).
- ______Convenci-me de uma verdade de 32 mil anos de
- idade, ao menos. Da verdade da arte rupestre e dos
- grandes mitos que foram sendo passados de boca em
- boca, de geração em geração, até se fixarem em papel.
- A verdade de uma terrível Medéia, de um enlouquecido
- Édipo, de uma trágica Julieta.
- ______A verdade das grandes histórias – ou mesmo das
- pequenas –, ao contrário da verdade dos conceitos
- estéreis, que não frutificam em histórias de som e fúria,
- permanece.
- ______Acho que a boa pedagogia, a pedagogia que fica,
- passa pela arte de narrar e de compartilhar. Não as
- opiniões rasas, que logo saem de moda, mas as vivências
- mais impactantes de nossas próprias vidas e das incon-
- táveis vidas que nos cercam e precederam. A vida é
- sobre isso: a vida. E só se vive por meio de histórias.
- ______Os gregos sabiam disso, os trovadores sabiam
- disso, os irmãos Grimm sabiam, Shakespeare sabia, e
- Machado, e Clarice… É uma pena que nós estejamos
- ocupados demais para saber; ocupados demais para
- aprender a viver.
Adaptado de: ESSENFELDER, Renato. O que as histórias nos ensinam. Estado de São Paulo, São Paulo, 09 de maio de 2018. Disponível em http://emais.estadao.com.br/blogs /renato-essenfelder/o-que-as-historias-nos-ensinam/. Acesso em 12/05/2018.