Leia este texto para
responder às questões de 01 a 09.
As
formigas
Quando minha prima e eu descemos do
táxi, já era quase noite.
Ficamos imóveis diante do velho sobrado de
janelas ovaladas,
iguais a dois olhos tristes, um deles vazado
por uma pedrada. Descansei
a mala no chão e apertei o braço da
prima.
— É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta.
Tínhamos outra escolha?
Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um
preço melhor a duas
pobres estudantes com liberdade de usar o
fogareiro no quarto, a
dona nos avisara por telefone que podíamos
fazer refeições ligeiras
com a condição de não provocar incêndio.
Subimos a escada
velhíssima, cheirando a creolina.
— Pelo menos não vi sinal de barata —
disse
minha prima.
A dona era
uma velha balofa, de peruca
mais negra do que
a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama
de seda japonesa
e tinha as unhas aduncas recobertas por uma
crosta de esmalte
vermelho-escuro, descascado nas pontas
encardidas. Acendeu um
charutinho.
— É você que estuda
medicina? — perguntou soprando a fumaça
na minha direção.
— Estudo
direito. Medicina é ela.
A mulher nos examinou com indiferença.
Devia estar pensando
em outra coisa quando soltou uma baforada
tão densa que precisei
desviar a cara. A saleta era escura,
atulhada de móveis velhos,
desparelhados. No sofá de palhinha furada no
assento, duas almofadas
que pareciam ter sido feitas com os restos
de um antigo
vestido, os bordados salpicados de
vidrilho.
Vou mostrar o
quarto, fica no sótão — disse ela em meio a
um
acesso de tosse. Fez um sinal para que a
seguíssemos.
— O inquilino antes
de
vocês também estudava medicina, tinha
um caixotinho de ossos que esqueceu aqui,
estava sempre
mexendo neles.
Minha prima
voltou-se:
— Um caixote de ossos?
A mulher não respondeu,
concentrada no esforço de subir a
estreita escada de caracol que ia dar no
quarto. Acendeu a luz. O
quarto não podia ser menor, com o teto em
declive tão acentuado
que nesse trecho teríamos que entrar de
gatinhas. Duas camas,
dois armários e uma cadeira de palhinha
pintada de dourado. No
ângulo onde o teto quase se encontrava com o
assoalho, estava
um caixotinho coberto com um pedaço de
plástico. Minha prima
largou a mala e, pondo-se de joelhos, puxou
o caixotinho pela alça
de corda. Levantou o plástico. Parecia
fascinada.
— Mas que ossos tão
miudinhos!
São de criança?
— Ele disse que
eram de adulto. De um anão.
— De
um
anão? é mesmo, a gente vê que já estão
formados… Mas que maravilha, é raro a beça
esqueleto de
anão. E tão limpo,
olha aí — admirou-se ela. Trouxe na ponta
dos dedos um pequeno
crânio de uma brancura de cal. — Tão
perfeito, todos os dentinhos!
—
Eu ia jogar
tudo no lixo, mas se você se interessa pode
ficar
com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês
é que vão usar, tenho
o meu lá embaixo. Banho quente extra.
Telefone também. Café
das sete às nove, deixo a mesa posta na
cozinha com a garrafa
térmica, fechem bem a garrafa recomendou
coçando a cabeça.
A peruca se deslocou ligeiramente. Soltou
uma baforada final: —
Não deixem a porta aberta senão meu gato
foge.
Ficamos nos
olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho
dos seus chinelos de salto na escada. E a
tosse encatarrada.
Esvaziei a mala, dependurei a blusa
amarrotada num cabide
que enfiei num vão da veneziana, prendi na
parede, com durex,
uma gravura de Grassmann e sentei meu urso
de pelúcia em cima
do travesseiro. Fiquei vendo minha prima
subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada
fraquíssima
que pendia de um fio solitário no
meio do teto e no lugar atarraxar uma
lâmpada de duzentas velas
que tirou da sacola. O quarto ficou mais
alegre. Em compensação,
agora a gente podia ver que a roupa de cama
não era tão alva assim,
alva era a pequena tíbia que ela tirou de
dentro do caixotinho.
Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo
buraco tão reduzido
como o aro de um anel. Guardou-as com a
delicadeza com que se
amontoam ovos numa caixa.
— Um
anão. Raríssimo, entende? E acho que não
falta
nenhum
ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver
se no fim da semana
começo a montar ele.
Abrimos uma lata de sardinha que
comemos com pão, minha
prima tinha sempre alguma lata escondida,
costumava estudar
até de madrugada e depois fazia sua ceia.
Quando acabou o pão,
abriu um pacote de bolacha Maria.
— De onde vem esse cheiro? — perguntei
farejando. Fui até
o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho. —
Você não está sentindo
um cheiro meio ardido?
— É de
bolor. A casa inteira cheira assim — ela
disse. E
puxou
o caixotinho para debaixo da cama.
No sonho, um anão louro
de colete xadrez e cabelo repartido
no meio entrou no quarto fumando charuto.
Sentou-se na cama
da minha prima, cruzou as perninhas e ali
ficou muito sério, vendo-
a dormir. Eu quis gritar, tem um anão no
quarto! mas acordei
antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no
chão, ainda vestida, minha
prima olhava fixamente algum ponto do
assoalho.
— Que é que você está
fazendo
aí? — perguntei.
— Essas
formigas. Apareceram de repente, já
enturmadas. Tão
decididas, está vendo?
Levantei e dei com as formigas
pequenas e ruivas que entravam
em trilha espessa pela fresta debaixo da
porta, atravessavam
o quarto, subiam pela parede do caixotinho
de ossos e desembocavam
lá dentro, disciplinadas como um exército em
marcha
exemplar.
— São milhares, nunca
vi tanta formiga assim. E não tem trilha
de volta, só de ida — estranhei.
— Só de ida.
Contei-lhe meu pesadelo com o anão
sentado em sua cama.
— Está
debaixo dela — disse minha prima e puxou
para fora o
caixotinho. Levantou o plástico.
— Preto de formiga. Me dá o vidro de
álcool.
— Deve ter sobrado alguma
coisa aí nesses ossos e elas descobriram,
formiga descobre tudo. Se eu fosse você,
levava isso lá
pra fora.
— Mas os ossos estão
completamente limpos, eu já disse. Não
ficou nem um fiapo de cartilagem,
limpíssimos. Queria saber o que
essas bandidas vêm fuçar aqui.
Respingou fartamente o
álcool em todo o caixote. Em seguida,
calçou os sapatos e como uma equilibrista
andando no fio de arame,
foi pisando firme, um pé diante do outro na
trilha de formigas.
Foi e voltou duas vezes. Apagou o cigarro.
Puxou a cadeira. E
ficou olhando dentro do caixotinho.
— Esquisito. Muito esquisito.
— O quê?
— Me lembro que
botei o crânio em cima da pilha, me lembro
que até calcei ele com as omoplatas para não
rolar. E agora ele
está aí no chão do caixote, com uma omoplata
de cada lado. Por
acaso você mexeu aqui?
— Deus me
livre, tenho nojo de osso. Ainda mais de
anão.
Ela cobriu o
caixotinho com o plástico,
empurrou-o com o pé
e levou o fogareiro para a mesa, era a hora
do seu chá. No chão, a
trilha de formigas mortas era agora uma fita
escura que encolheu.
Uma formiguinha que escapou da matança
passou perto do meu
pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as
mãos à cabeça, como
uma pessoa desesperada. Deixei-a sumir numa
fresta do assoalho.
[...]
TELLES,
Lygia Fagundes. In: STEEN, Edla van. O conto
da
mulher brasileira. 3 ed. São
Paulo: Global, 2007. p. 91-94. Fragmento.