Instrução: As questões de números 01 a 15 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
Para que tantos relógios se o tempo nos escapa?
Por Eliane Brum
- Na casa da infância do meu pai havia um relógio de parede. Era precioso e ainda hoje
- persiste, enquanto a casa vai virando natureza no meio do mato. Meu pai e sua família viviam na
- zona rural de Ijuí, no interior do Rio Grande do Sul, num povoado de colonização italiana
- chamado Picada Conceição. Lá meu avô plantava e socava erva-mate, numa lida cotidiana que
- envolvia os filhos homens. Minha avó e as filhas ocupavam-se com a polenta, as cucas e a sopa,
- as galinhas, as roupas, a casa. O relógio de parede marcava o tempo da vida, solene sobre a
- mesa das refeições de domingo. Cabia aos mais velhos dar corda no relógio. Mas às vezes
- alguém esquecia e o tempo escapava. Descobriam, então, a vida parada sobre suas cabeças.
- E agora? Como saberiam as horas? Redescobriam o que fingiam não saber. O relógio era
- só o reconhecimento de algo que já estava lá de tantas maneiras. Era a máquina do tempo numa
- vida em que tudo que era vivo ao redor seguia seus próprios desígnios. Acordavam com o galo e
- seguiam o dia orientados pelo sol. Esqueciam-se de dar corda porque raramente o relógio era
- consultado. Gostavam de ouvi-lo tique-taquear. Orgulhavam-se da engenhosidade de sua
- máquina. Eles que descendiam de mortos de fome do outro lado do mundo.
- Depois de algumas semanas, o silêncio do relógio tornava-se incômodo. Sentiam uma vaga
- inquietação imiscuindo-se pelas paredes da casa, a desconfiança de que as máquinas não
- deveriam parar. Tampouco se arriscavam a deixá-lo assinalar horas erradas, desarranjando o
- funcionamento do mundo. Meu avô então designava um dos filhos mais velhos para buscar o
- tempo na cidade. E, claro, fazer algumas compras. A 13 quilômetros, a cidade ficava longe para
- quem só contava com suas duas pernas ou as quatro do cavalo, sempre requisitado para tarefas
- mais sérias. E nunca se ajeitava o cavalo ou se aprumava a aranha para uma missão solitária. Só
- iam até lá, onde se sentiam deslocados com suas roupas de roça, para se abastecer do pouco
- que não trocavam por ali mesmo ou não encontravam no bem abastecido bolicho do Tio Chico. E
- para se apossar do tempo.
- Meu avô entregava a um dos filhos seu próprio relógio de bolso, sempre parado porque só
- era usado em casamentos e outras ocasiões solenes da vida pública dos homens. Preso a uma
- corrente encimada por uma moeda de prata com a efígie de Dom Pedro II, era das poucas
- riquezas materiais do meu avô, herdada dos que vieram antes. O encarregado guardava o
- relógio no próprio bolso, esforçando-se para não machucá-lo com os calos de uma mão feita na
- enxada, encilhava o cavalo e galopava até Ijuí. É preciso compreender que naquele tempo
- relógios eram bens valiosos. E possuir o tempo era para poucos.
- Meu pai herdou este grande respeito pelo tempo. Cada um de seus três filhos ganhou um
- relógio ao completar 10 anos. Por alguma razão ele e minha mãe chegaram __ conclusão de que
- esta era uma idade em que podíamos começar a nos responsabilizar pelo tempo, a carregá-lo no
- pulso. Era um presente muito esperado. Percorro agora a linha do tempo da minha trajetória
- errática cercada por relógios. A começar pelo do computador onde escrevo. Tudo ao meu redor
- marca __ passagem do tempo, do celular ao forno de microondas. As horas estão por toda parte,
- mesmo que eu não as queira. O tempo e as máquinas do tempo converteram-se em mercadoria
- ordinária. Desconfio que esta perda da solenidade dos relógios tenha relação com a perda da
- consciência do tempo na vida de todos nós. Tantas marcações por todos os lados e o tempo se
- esvai como se fosse barato como um relógio de camelô.
- Só não conseguimos escapar da morte, mas podemos morrer em vida se entregarmos
- nosso tempo. Talvez não exista nada mais importante do que pensar sobre o que você quer fazer
- com o tempo que é seu. Porque se não tem tempo para o que é importante para você, para as
- pessoas importantes para você, por alguma razão, em algum momento, você decidiu se
- desapossar de você. É preciso empreender este caminho sempre árduo de resistência e voltar a
- encarnar o próprio corpo.
(Disponível em: http://desacontecimentos.com/?p=338 – texto adaptado especialmente para esta prova.)