Leia o texto a seguir
para responder às
questões de 01 a
05.
VOCÊ RECONHECE QUANDO CHEGA A
FELICIDADE?
Tenho uma
forte antipatia pela obrigação
de ser feliz que
acompanha o Carnaval. Quem foge da folia
ganha o rótulo de
antissocial, depressivo ou chato. Nada
contra o Carnaval. Apenas
contra essa confusão de conceitos. Uma
festa alegre não
significa que você esteja plenamente
feliz. E forçar uma situação
de felicidade tem tudo para terminar em
arrependimento e frustração.
Aliás, você reconhece a felicidade quando
ela chega?
Sabe que está sendo feliz naquele momento?
Espere um pouco
antes de responder. Pense de novo.
Estamos falando de felicidade! Não
de uma
alegria qualquer.
E qual é a diferença? Bem, descrever a
felicidade não é fácil.
Ela é muito recatada. Não fica ali,
posando para foto, sabe?
Mas um Manual de Reconhecimento da
Felicidade diria mais ou
menos o seguinte: Ela é mansa. Não faz
barulho. Ao mesmo
tempo é farta. Quando chega, ocupa um
espaço danado. Apesar
disso, você quase não repara que ela está
ali. Se chamar a
atenção, não é ela. É euforia. Alegria. A
licenciosidade de uma
noite de Carnaval. Ou um reles frenesi
qualquer, disfarçado de
felicidade.
A dita cuja é discreta.
Discretíssima. E
muito tranquila. Ela te
faz dormir melhor. E olha, vou te contar
uma coisa: a felicidade é
inimiga da ansiedade. As duas não podem
nem se ver. Essa é a
melhor pista para o seu Manual de
Reconhecimento da
Felicidade. Se você se apaixonou e está
naquela fase de pura
ansiedade, mesmo que esteja superfeliz,
não é felicidade. É
excitação. Paixonite. Quando a ansiedade
for embora, pode ser
que a felicidade chegue. Mas ninguém
garante.
É temperamental, a
felicidade. Não vem por
qualquer coisa.
E para ficar então… hi, não conheço nenhum
caso de alguém
que a tenha tido por perto a vida inteira.
Por isso é tão
importante reconhecê-la quando ela chega.
Entendeu agora por
que a minha pergunta? Será que você sabe
mesmo quando
está feliz? Ou será que você só consegue
saber que foi feliz
quando a felicidade já passou?
Eu estudo muito
a felicidade. Mas não
consigo reconhecê-la.
Talvez porque eu seja péssima
fisionomista. Ou porque ela seja
muito mais esperta do que eu. Mais sábia.
Fato é que eu só sei
que fui feliz depois. No futuro. Olho para
o passado e
reconheço: “Nossa, como eu fui feliz
naquela época!” Mas no
presente ela sempre me dá uma rasteira.
Ando por aí, feliz da
vida e nem sei que estou nesse estado. Por
isso, aproveito
menos do que poderia a graça que é ter
assim, tão pertinho, a
tal da felicidade.
Nos últimos tempos,
dei para fazer uma
lista de momentos
felizes. E aqui é importante deixar claro
que esses momentos
devem durar um certo período de tempo. Um
episódio isolado
feliz – como quatro dias de Carnaval, por
exemplo – não significa
felicidade. A felicidade, quando vem, não
vem de passagem.
Não dura para sempre, mas dura um
tempinho. Gosta de uma
certa estabilidade, a danada! O problema é
saber que ela está
ali na hora em que ela está ali. Mas,
voltando à lista, até que ela
é longa.
Já fui bastante feliz. Talvez
não na maior
parte do tempo.
Mas acho que ninguém é. A lista é um
grande exercício.
Sabendo quando você foi feliz, é mais
fácil descobrir por que
você foi feliz. Para ser ainda mais
funcional, é bom que a lista
seja cronológica. Lendo a minha, constato
que fico cada vez
mais feliz e por mais tempo. Será que ela
está aqui agora? Não
sei dizer. Mas a paz de que desfruto agora
é um sintoma dela.
E isso não tem nada a ver com a tal
obrigação de ser feliz desfilando
no Sambódromo. Continuo meus estudos. Já
tenho certeza
de que hoje sou mais amiga da felicidade
do que jamais fui
em qualquer tempo.
PADRÃO, Ana Paula. Você
reconhece quando
chega a felicidade? In:
ISTOÉ, São Paulo, 28 fev. 2012.
Editora
Três, p. 98.