Leia o texto para responder
às questões de
números 31 a 39.
Com “O Homem que Matou Dom
Quixote”, Terry
Gilliam
segue
fiel a seu cinema
O HOMEM QUE MATOU DOM
QUIXOTE
(THE MAN WHO KILLED DON
QUIXOTE)
• Classificação 12 anos
• Elenco Jonathan Price,
Adam Driver, Joana
Ribeiro
• Produção
Bélgica, 2018
•
Direção Terry Gilliam
Lutar
contra moinhos de vento acreditando
que combate
gigantes é a ação mais conhecida de Dom
Quixote. Assim
como o personagem do romance de Cervantes,
os filmes
de Terry Gilliam se encontram no limiar
entre o que os olhos
veem e o que a imaginação enxerga.
“O Homem que Matou
Dom Quixote” dá um fecho
à epopeia
do cineasta, iniciada 30 anos atrás, quando
ele começou
o projeto de uma livre adaptação do clássico
espanhol.
A
produção naufragou após uma sucessão quase
irreal
de problemas – registrada no documentário
“Perdido em La
Mancha” (2002) – que fizeram Gilliam
abandonar o sonho.
O longa finalmente concluído sobrepõe
um
tanto de ficção
inspirada nas peripécias do romance a outro
tanto de documentário,
em seu modo de crônica aloprada do que é
fazer
cinema. Gilliam se projeta no personagem de
Toby (Adam
Driver), cineasta com síndrome de grandeza
que retorna à
Espanha para dirigir um filme
publicitário.
Entediado com
o trabalho de encomenda, ele
parte em
busca do passado, quando filmou na mesma
região uma
adaptação barata do “Dom Quixote”.
O motivo do cineasta
em crise remete ao
“Oito e Meio”
de Fellini, mas Gilliam, ainda bem, nem
tenta se equiparar ao
mestre. Toby logo assume o lugar de Sancho,
o pançudo companheiro
que faz o papel de testemunha e contrapõe
alguma
lucidez aos delírios do Quixote.
Este reencarna na figura
de um sapateiro,
tipo comum
escolhido
por Toby para protagonizar seu filme
juvenil, mas
que um dia entrou e não saiu do personagem.
Jonathan Price,
formidável, se encarrega de transformar o zé
ninguém em
paradigma
dos que preferem viver no mundo da
lua.
A partir
desse material, Gilliam embaralha
situações realistas,
memórias e sonhos para afirmar a
contiguidade entre criação
artística e imaginação, a mesma ponte que o
levou a projetar
seu espírito delirante nas figuras do Barão
de Munchausen,
dos Irmãos Grimm e do jornalista gonzo
Hunter S. Thompson.
O reflexo dessa autoimagem do artista
como
variação do
louco aparece, contudo, menos no personagem
do criador
em crise que na do próprio Quixote, cujos
devaneios ultrapassam
qualquer realidade. “Santo ou insano?” é uma
pergunta
que Toby faz ao Quixote mais de uma
vez.
O espírito
picaresco e farsesco da obra de
Cervantes
acompanha cada peripécia da dupla e ajuda o
filme a não
ser uma adaptação para iniciados. A
narrativa em forma de
episódios ajusta-se bem à atenção flutuante
do público atual
e apenas a duração da apoteótica sequência
de uma festa à
fantasia vai além da conta.
Apesar de quase ter sido
morto por Dom
Quixote, Gilliam
prossegue fiel a seu cinema como arte do
desastre.
(Cássio Starling Carlos, Ilustrada.
https://www1.folha.uol.com.br.
06.06.2019. Adaptado)