Mudar o mundo
Lya Luft
Quando jovens,
cultivávamos a utopia de um mundo melhor.
Tenho refletido sobre isso. Tenho lido e
pesquisado sobre a história do nosso
comportamento através dos séculos. Parece
que, apesar de toda a violência atual, fomos
ficando menos violentos. Difícil acreditar,
eu sei. Mas basta pensar nos antigos povos
escravizados. Mulheres brutalizadas e
crianças maltratadas sem nenhuma defesa,
impérios cruéis e perseguições terríveis
aplaudidas, como Cruzadas e Inquisição, para
ver que melhoramos.
Talvez em nosso DNA não
sejamos predadores ferozes. Quem sabe
compaixão e solidariedade tenham nascido com
essa nossa estranha espécie. Os humanos que
andam eretos e, para complicar tudo, pensam.
Quem sabe esse ídolo de dupla face, prazer e
poder, com a economia como lema primeiro,
não seja inato em nós, mas invenção de uma
humanidade que pode ser mais sofisticada, no
entanto ainda é destrutiva demais.
Seria possível mudar
o mundo, mudando por
pouco que seja os princípios e valores de
cada um de nós? Ou é um velho ideal
ultrapassado, e juvenil? Talvez haja um modo
de transformar nossa louca futilidade e
desvairada busca de poder, estimulando o que
em nós já existe: o desejo do bem do outro,
e uma convivência menos truculenta?
Se o
primeiro objetivo de todos os governos fosse
o bem das pessoas, a deusa Economia e seu
parceiro, o Poder, perderiam um pouco da
força. E teríamos outros ideais, modelos,
ambições. Haveríamos de nos respeitar mais,
também. Reavaliar nossos desejos, consumir
menos ou melhor. Se fosse preciso trocar a
manicure e o cabeleireiro por comida decente
para as crianças e, quem sabe, a prestação
de uma casinha própria. Mudar o sonho do
carrão importado ou mais harmonia, mudar o
conceito do que é "moderno", que não é
inconsequente e delirante. Recuperar a
compostura perdida quando fazemos
proselitismo com cartazes e material de
televisão dizendo que alguém é uma
prostituta feliz, ou "sou feliz porque sou
prostituta". O material foi recolhido pela
insanidade, mas alguém, num cargo importante
em um dos muitos ministérios, teve essa
genial ideia. Respeitar não significa
elogiar, nem apresentar como modelo.
Quem
sabe começamos tendo um pouco mais de bom-
senso e pudor. Quem sabe começamos querendo
ser úteis, produtivos e compassivos dentro
do nosso círculo de família, trabalho,
comunidade. O ideal não seria criar nossos
filhos para ser milionários ou as meninas
para ser modelos de beleza e sensualidade,
mas para ser pessoas decentes, que acreditam
em algum tipo de felicidade tranquila, que
vão construir sua vida, produzir no seu
trabalho, conviver bem com sua família,
enfim, ser transformadores do mundo, dessa
maneira mínima que pode parecer tola, mas é
essencial.
Abrir o jornal e ver o
noticiário, todos nós sabemos, é entrar numa
série policial violenta, receber uma
bofetada de falta de ética, roubalheira,
indignidades várias e muitos absurdos
consagrados.
Médicos ganhando pouco e
exaustos pelo excesso de trabalho atendendo
dezenas de pacientes nas emergências, às
vezes mal aparelhadas pelo país afora.
Professores recebendo salários vergonhosos,
submetidos à violência por parte de alunos
e, às vezes, de pais de alunos, jovens que
dentro da sala de aula e no pátio se
engalfinham como bandidos, gente inocente
que morre queimada porque não tinha mais que
alguns reais no bolso ou no banco, acidentes
de trânsito totalmente evitáveis, obras
públicas ruindo quando mal ficam prontas,
falta de bons engenheiros, de seriedade no
uso de material, de se levar em conta as
vidas humanas que ali hão de correr riscos
sérios. Isso tudo sem falar nas guerras
fora de nosso alcance, mas dentro de nossa
casa pelos meios de comunicação.
A gente
podia mudar: se cada um mudasse um
pouquinho, exigisse muito mais dos líderes
em todos os setores, e aspirasse a algo
muito melhor. Talvez digam que é apenas
utopia minha, resquícios de um idealismo
juvenil: mas amadurecer não precisa ser
renunciar a todas as nossas crenças.
Disponível
em:
http://www.gilbertogodoy.com.br/ler-
post/mudar-o-mundo--lya-luft Acesso em:
10
ago. 2017.