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A respeito das questões gramaticais presentes no trecho...

Texto 2 para responder as questões de 7 a 11.


1 São duas as éticas: a que brota da contemplação das
estrelas perfeitas, imutáveis e mortas, a que os filósofos dão
o nome de ética de princípios; e a ética que brota da
4 contemplação dos jardins imperfeitos e mutáveis, mas vivos,
a que os filósofos dão o nome de ética contextual.
Os jardineiros não olham para as estrelas. Eles nada
7 sabem a respeito das estrelas, que alguns dizem já ter visto
por revelação dos deuses. Como os homens comuns não
veem essas estrelas, eles têm de acreditar na palavra dos que
10 dizem já as ter visto longe, muito longe.... Os jardineiros só
acreditam no que os seus olhos veem. Pensam a partir da
experiência: pegam a terra com as mãos e a cheiram...
13 Vou aplicar a metáfora a uma situação concreta. Uma
mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela
morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai
16 visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos
olhos do médico, ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo
desta?”. Está configurada uma situação ética. Que é que o
19 médico vai dizer?
Se o médico for um adepto da ética estelar de
princípios, a resposta será simples. Ele não terá de decidir
22 ou escolher. O princípio é claro: dizer a verdade sempre. A
enferma perguntou, a resposta terá de ser a verdade. E ele,
então, responderá: “Não, a senhora não escapará desta. A
25 senhora vai morrer...”. Respondeu segundo um princípio
invariável para todas as situações.
A lealdade a um princípio o livra de um pensamento
28 perturbador: o que a verdade irá fazer com o corpo e a alma
daquela mulher? O princípio, sendo absoluto, não leva em
consideração o potencial destruidor da verdade. Mas, se for um
31 jardineiro, ele não se lembrará de nenhum princípio. Ele só
pensará nos olhos suplicantes daquela mulher. Pensará que a
sua palavra terá de produzir a bondade. E ele se perguntará:
34 “Que palavra eu posso dizer que, não sendo um engano (como
‘A senhora breve estará curada...’), cuidará da mulher como se
a palavra fosse um colo que acolhe uma criança?” E ele dirá:
37 “Você me faz essa pergunta porque você está com medo de
morrer. Também tenho medo de morrer...”. Aí, então, os dois
conversarão longamente — como se estivessem de mãos
40 dadas... — acerca da morte que os dois haverão de enfrentar.
Como sugeriu o apóstolo Paulo, a verdade está subordinada à
bondade. Duas éticas. A única pergunta a se fazer é: “Qual
43 delas está mais a serviço do amor?”.

ALVES, Rubem. Folha de S. Paulo, 4 de março de 2008, com adaptações.

A respeito das questões gramaticais presentes no trecho “Uma mulher está com câncer em estado avançado. É certo que ela morrerá. Ela suspeita disso e tem medo. O médico vai visitá-la. Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico, ela pergunta: “Doutor, será que eu escapo desta?” (linhas de 13 a 18), assinale a alternativa correta.


A

Na frase “Doutor, será que eu escapo desta?”, encontra-se uma construção própria da oralidade; e o termo contraído “desta” é composto por de e esta.


B

Em “Doutor, será que eu escapo desta?”, a vírgula empregada é facultativa, e foi usada para separar o aposto.


C

Na construção “Olhando, do fundo do seu medo, no fundo dos olhos do médico, ela pergunta”, a linguagem empregada é denotativa.


D

O termo “disso” é um complemento da forma verbal “suspeita” e é constituído pela contração da preposição de e do pronome demonstrativo isso; no contexto, isso significa “Uma mulher está com câncer”.


E

O final do trecho apresentado poderia ser corretamente escrito da seguinte forma: a mulher pergunta ao doutor se ela conseguirá escapar daquela situação?