OBS: Não serão
exigidas as alterações
introduzidas pelo Decreto Federal
6.583/2008 - Acordo Ortográfico da Língua
Portuguesa, alterado pelo Decreto nº
7.875/2012 que prevê que a implementação
do Acordo obedecerá ao período de
transição de 1º de janeiro de 2009 a 31 de
dezembro de 2015, durante o qual
coexistirão a norma ortográfica atualmente
em vigor e a nova norma
estabelecida.”.
Aprender a desfazer
O mundo tem aprendido
que desfazer pode
ser bem mais complicado que fazer. Pode
ser mais difícil desfazer o aquecimento
global. Pode ser impossível desfazer a
destruição de uma floresta. Pode ser bem
complicado desfazer o desaparecimento de
uma espécie.
No campo da tecnologia,
entretanto, ainda
estamos engatinhando. Quem não terá em
casa um equipamento eletrônico antigo que
não sabe a quem dar porque ninguém quer,
nem onde descartar porque não há um local
apropriado e muito menos desmontar, porque
quase nunca aprendemos a desfazer, de
maneira econômica, aquilo que fizemos em
tecnologia?
Funciona assim: quando um
equipamento fica
velho, pode ter muita riqueza dentro dele
para ser reaproveitada. Com a ajuda da
internet, você vai conseguir estimar
quanto tem de plástico, vidro, metais
comuns e preciosos até com boa
aproximação. Feitas as contas, descobre-se
rapidamente três grandes verdades da
tecnologia de descaracterização de
equipamentos:
1) Sem
escala não há negócio. Não estamos
falando de desmontar um celular, mas
milhares deles;
2) O custo
em tempo para desmontar o
equipamento precisa ser muito menor que o
valor que houver nele, caso contrário, não
valerá a pena;
3) É
preciso aproveitar tudo o que houver
no equipamento para que a desmontagem
seja, de verdade, rentável e não agrida o
meio ambiente.
O nome da matéria que
trata do assunto?
Eco Design ou Design Ecológico e, no
Brasil, universidades como a de São Carlos
fazem um belo trabalho a respeito. Gosto
de definir o assunto como a arte de
projetar coisas, pensando em desfazê-las
de forma simples e não agressiva, quando
não forem mais úteis.
Como um
exemplo vale mais que mil
parágrafos, vou contar uma história.
Corriam os idos dos anos noventa. Duas da
manhã, eu virava uma noite de sexta-feira
em um cliente na cidade do Rio de Janeiro,
longe de casa, mais de uma semana, como na
música.
Estávamos eu e um funcionário
local, o
grande Najan, que de cliente já havia se
tornado amigo, tanto que viramos noites
juntos no trabalho. De repente, desespero
total. Na máquina em que eu trabalhava, um
moderníssimo PC 386, não havia um leitor
de disquetes de 5 ¼ de polegada. Era
gravar um disquete e ganhávamos a
liberdade, eu para voltar para casa e
encontrar a família e ele direto para a
praia ou algum outro merecido prazer da
cidade maravilhosa.
- Deixa comigo, diz o
Najan! Vou desmontar
a unidade daquela máquina ali e trazer
para cá, apontando para um equipamento
modelo XT de marca que prefiro não dizer,
já velho e perto da aposentadoria.
Caixa de ferramentas em punho, eu de
cá
animado e compilando os programas para
gravar e mandar para a produção, ele de lá
começa a desmontagem . E é aí que você vai
entender um pouco de design ecológico.
Vinte minutos depois, saio correndo da
minha cadeira para segurar o Najan. Ele,
martelo de borracha na mão e desespero nos
olhos estufados, dava pancadas, de leve é
verdade, na velha máquina e dizia:
- Um
pai... Uma pancada... Paga escola a
vida inteira... Outra pancada... Para um
filho! Se sacrifica! Mais uma pancada...
Pra ele projetar uma porcaria dessa.
Pancada final.
Na mesa jaziam todas
as peças do
computador, totalmente desmontado para
permitir a remoção de uma simples unidade
de disco. Desnecessário dizer que o dia
amanheceu antes que a gente terminasse
todo o serviço e a devolvêssemos a seu
jazigo eterno no seio daquele velho
XT.
Se você olhar em volta na sua
empresa e
perceber que desmontar todos os
equipamentos que estão lá vai ser
complicado assim, passo o telefone do
velho amigo Najan. Talvez ele ainda tenha
o bom e velho martelo de borracha.
(Roberto Francisco Souza – Revista
Ecológico – adaptado)