AS QUESTÕES DE 1 A 15 ESTÃO RELACIONADAS AO TEXTO ABAIXO
TEXTO
A DEMOCRACIA EM BOLHAS
- As redes sociais permitem que convivamos diariamente com um número muito maior de pessoas do que seria
- possível apenas com o contato direto. No entanto, uma boa parte do tempo que dedicamos às redes sociais é gasto em bolhas,
- convivendo com pessoas que pensam como a gente sobre os temas que nos interessam. Essas comunidades nos dão conforto,
- por estarmos entre iguais e, assim, evitamos a exposição às formas mais agressivas de argumentação. Essas bolhas acabam
- por reforçar nossas convicções, compartilhadas com esses companheiros.
- Por outro lado, nos poucos momentos de contato na rede com o pensamento divergente, as nossas posturas parecem
- ser de guerra. A forma como expressamos nossas opiniões nas redes sociais contribui decisivamente para a polarização do
- debate político. Muitas vezes, reagimos a informações ou opiniões das quais não gostamos com rispidez, tratando os
- portadores das informações ou os defensores das opiniões com desrespeito. Como diferentes grupos reagem assim, cria-se
- uma espiral de intolerância. A cada degrau, o outro é visto como alguém a quem não devemos dar ouvidos. A democracia
- perde muito com isso, já que é atingida a nossa capacidade de entender o que está em jogo.
- A interação em sociedade é fundamental para o nosso processo de aprendizagem. Muitas vezes, no primeiro
- contato com uma informação, fazemos leituras imprecisas ou distorcidas. A exposição a terceiros do nosso entendimento e
- as respostas que deles recebemos nos ajudam a entender melhor o tema sobre o qual falamos, já que podemos ser instados a
- rever as nossas fontes ou considerar outras interpretações. Em tese, assim, quanto maior a diversidade de pensamento dos
- nossos interlocutores, maior será a nossa capacidade de aprendizado social.
- Uma pesquisa feita por professores da Universidade da Pensilvânia confirma essa ideia do aprendizado social, mas
- demonstra que ele é limitado quando estamos em contato com pessoas que sabemos que têm posições políticas diferentes das
- nossas. Os pesquisadores dividiram os participantes do experimento em quatro grupos, que foram expostos a dados da NASA
- sobre mudança climática, que eles precisavam interpretar, tentando chegar ao melhor entendimento possível que, para os
- pesquisadores, era o que se aproximasse mais da interpretação feita pela NASA. Um grupo era formado por pessoas com a
- mesma posição política, que respondiam individualmente às questões. Outros três grupos eram formados por pessoas com
- posições diferentes. Em um dos grupos plurais, o participante não sabia a posição política dos outros, nos outros dois grupos
- essa posição era exposta. Em um grupo, era apresentada a média dos entendimentos dos membros ao lado dos outros dos
- partidos republicano e democrata. No outro grupo, cada participante via informações sobre o entendimento a que chegaram
- quatro pessoas de quem ele sabia a posição política. Depois de responder às perguntas, havia oportunidades de repensar as
- respostas. No caso dos grupos plurais, nesse momento, o participante era exposto aos entendimentos das outras pessoas. Com
- o experimento, os pesquisadores constataram que a capacidade de entendimento dos dados aumentou quando os participantes
- foram expostos às opiniões dos outros, mas isso foi maior no grupo que não conhecia a posição política dos outros
- participantes. Nos dois grupos nos quais a posição política era exposta, os preconceitos políticos reduziram a capacidade de
- compreensão dos participantes.
- A democracia precisa da interação, do diálogo. As questões públicas postas à deliberação precisam ser
- compreendidas da forma mais clara possível. A mídia tradicional faz um papel crítico fundamental, desvelando aspectos às
- vezes pouco evidentes dos temas, mas só há ganhos quando a cidadania é informada por diversas fontes. Nossa postura
- isolacionista nas redes sociais fecha espaços de confrontos de ideias, de interpretações. O resultado do isolamento é a
- radicalização.
- Não é fácil sair da bolha, pois, como dissemos, ela nos dá conforto. No entanto, precisamos quebrar ou reduzir tais
- barreiras. Como outros problemas que atingem a internet, não parece haver saída para a questão do isolamento em bolhas
- sem a assunção de uma postura específica pelos usuários. Precisamos usar menos o bloqueio de pessoas e dedicar um pouco
- mais de tempo para ler textos de veículos e de autores que sabemos ter orientação política diferente da nossa. Há custos,
- evidentemente. No entanto, fora as formas mais radicais e intolerantes de discurso político, que existem à esquerda e à direita,
- vamos descobrir o quanto é instrutivo o acesso a textos de pessoas de quem discordamos. Vamos descobrir que, do outro
- lado, há muito pensamento honesto. A democracia agradece.
GUSTAVO FERREIRA SANTOS – FONTE: http://dissenso.org/democracia-em-bolhas/