Imagem de fundo

A oração cujo predicado tem como núcleo um verbo...

As questões abaixo foram formuladas com base no texto “Pedaço de mim”, de J. P. Cuenca.

Leia-o, com atenção, para assinalar as alternativas corretas.


Pedaço de mim

J. P. Cuenca


  1. "Oh, pedaço de mim / Oh, metade amputada de mim / Leva o que há de ti / Que a
  2. saudade dói latejada / É assim como uma fisgada / No membro que já perdi."
  3. É o que a minha Zizi Possi interior cantarola fininho enquanto, pela quinta vez num
  4. espaço de uma hora, procuro o meu celular no bolso descendo a Fradique em direção ao
  5. metrô. A dor do membro fantasma, aquela que pacientes sentem em braços amputados – e
  6. ex-amantes em algum lugar entre o coração e o estômago – manifesta-se em mim como se
  7. eu fosse um ciborgue.
  8. Há quatro dias perdi meu iPhone numa dessas maratonas etílicas com duvidosas
  9. escalas entre o Cupido e o Parlapatões. Perdi ou fui roubado, pouco importa. Fato é que,
  10. desde então, minha existência se transformou numa coleção de sobressaltos.
  11. Saio de casa. Todo um mundo pulsante de notícias, imagens brilhantes, solicitações e
  12. mensagens urgentes é arrancado da minha consciência assim que desligo o computador e
  13. fecho a porta. Ando pela rua com o pensamento manco, desacostumado com tamanho
  14. silêncio. O que acontecerá enquanto estou fora? Minhas ansiedades são respondidas com o
  15. eco de uma planície indiferente e sem paisagem. Vácuo, branco, nihil novi.
  16. O sinal fecha para os pedestres e me vejo sem saber o que fazer com as mãos. O
  17. mesmo acontece em qualquer pausa de conversa, espera no restaurante, ponto de ônibus ou
  18. vagão de metrô. Entro na composição debaixo da terra e observo com inveja os outros seres
  19. humanos manipulando seus smartphones, absortos entre fones de ouvido e uma pequena
  20. tela de cristal líquido a oferecer uma torrente inesgotável de pequenas recompensas. Eu,
  21. excluído, já faço parte de uma outra categoria. E entendo o ladrão. Seria capaz de abraçá-lo,
  22. solidário.
  23. Não controlo meus pensamentos. Cogito correr agora mesmo comprar um telefone
  24. roubado baratinho ali no chão do Viaduto Santa Efigênia (sim, agora penso, convicto, fui
  25. roubado, talvez até ache o meu!) mas, entre a covardia e um impulso de ética, logo abandono
  26. a ideia e me distraio com a cidade de São Paulo.
  27. Trata-se de um tipo de distração muito concentrada. E vejo um pombo gordo no
  28. arame farpado de um prédio tumular, uma moça equilibrando o violão na faixa do sinal
  29. vermelho, um arranjo geométrico de cabos entre dois postes contra o céu, uma poça de
  30. esgoto a refletir o edifício luxuoso do lado do sobrado. Busco o telefone para registrar o
  31. momento e pendurá-lo no meu Instagram. Nada.
  32. E para que serve tudo isso se não posso tirar fotografias e me gabar para
  33. desconhecidos? Ou melhor, guardá-las e nunca mais ver?
  34. Passado o primeiro episódio de abstinência, começo a pensar no livro que estou
  35. editando. Depois de semanas improdutivas, tenho ideias simultâneas sobre diferentes
  36. capítulos num soluço desenfreado de frases inteiras. Começo a fazer planos para o futuro,
  37. enxergo possibilidades de trabalho, traço estratégias de fuga. Minhas cadeias de pensamento
  38. são longas e cada vez mais complexas, flutuo sobre o asfalto como se estivesse entupido de
  39. nootrópicos, marcho offline entre os transeuntes, agora já enxergo o caminho sem aplicativos
  40. ou mapas, e este caminho é o da iluminação: sou tomado por um despertar que descortina as
  41. coxias do teatro e arranca dos prédios suas fachadas. Um satori entre as árvores da Praça da
  42. República.
  43. Logo a compreensão dá lugar a mania, o pânico, a fisgada no bolso vazio, o
  44. terremoto invisível, o incêndio sem fuga, o ar rarefeito: eu preciso conferir o meu e-mail. Corro
  45. para casa onde descubro que ninguém escreveu, o dinheiro ainda não saiu, aquela notícia
  46. não chegou.
  47. Acaba a tarde inútil, abro as janelas e vejo o engarrafamento lá embaixo. Dentro dos
  48. carros, eles olham seus celulares tentando esquecer alguma coisa.


Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2015/06/1641187-pedaco-de-mim.shtml Acesso em: 5 abril 2016.

A oração cujo predicado tem como núcleo um verbo intransitivo é


A

“Acaba a tarde inútil” (l. 47).


B

“talvez até ache o meu” (l. 25).


C

“traço estratégias de fuga” (l. 37).


D

“e pendurá-lo no meu Instagram” (l. 31).