As questões abaixo foram formuladas com base no texto “Pedaço de mim”, de J. P. Cuenca.
Leia-o, com atenção, para assinalar as alternativas corretas.
Pedaço de mim
J. P. Cuenca
- "Oh, pedaço de mim / Oh, metade amputada de mim / Leva o que há de ti / Que a
- saudade dói latejada / É assim como uma fisgada / No membro que já perdi."
- É o que a minha Zizi Possi interior cantarola fininho enquanto, pela quinta vez num
- espaço de uma hora, procuro o meu celular no bolso descendo a Fradique em direção ao
- metrô. A dor do membro fantasma, aquela que pacientes sentem em braços amputados – e
- ex-amantes em algum lugar entre o coração e o estômago – manifesta-se em mim como se
- eu fosse um ciborgue.
- Há quatro dias perdi meu iPhone numa dessas maratonas etílicas com duvidosas
- escalas entre o Cupido e o Parlapatões. Perdi ou fui roubado, pouco importa. Fato é que,
- desde então, minha existência se transformou numa coleção de sobressaltos.
- Saio de casa. Todo um mundo pulsante de notícias, imagens brilhantes, solicitações e
- mensagens urgentes é arrancado da minha consciência assim que desligo o computador e
- fecho a porta. Ando pela rua com o pensamento manco, desacostumado com tamanho
- silêncio. O que acontecerá enquanto estou fora? Minhas ansiedades são respondidas com o
- eco de uma planície indiferente e sem paisagem. Vácuo, branco, nihil novi.
- O sinal fecha para os pedestres e me vejo sem saber o que fazer com as mãos. O
- mesmo acontece em qualquer pausa de conversa, espera no restaurante, ponto de ônibus ou
- vagão de metrô. Entro na composição debaixo da terra e observo com inveja os outros seres
- humanos manipulando seus smartphones, absortos entre fones de ouvido e uma pequena
- tela de cristal líquido a oferecer uma torrente inesgotável de pequenas recompensas. Eu,
- excluído, já faço parte de uma outra categoria. E entendo o ladrão. Seria capaz de abraçá-lo,
- solidário.
- Não controlo meus pensamentos. Cogito correr agora mesmo comprar um telefone
- roubado baratinho ali no chão do Viaduto Santa Efigênia (sim, agora penso, convicto, fui
- roubado, talvez até ache o meu!) mas, entre a covardia e um impulso de ética, logo abandono
- a ideia e me distraio com a cidade de São Paulo.
- Trata-se de um tipo de distração muito concentrada. E vejo um pombo gordo no
- arame farpado de um prédio tumular, uma moça equilibrando o violão na faixa do sinal
- vermelho, um arranjo geométrico de cabos entre dois postes contra o céu, uma poça de
- esgoto a refletir o edifício luxuoso do lado do sobrado. Busco o telefone para registrar o
- momento e pendurá-lo no meu Instagram. Nada.
- E para que serve tudo isso se não posso tirar fotografias e me gabar para
- desconhecidos? Ou melhor, guardá-las e nunca mais ver?
- Passado o primeiro episódio de abstinência, começo a pensar no livro que estou
- editando. Depois de semanas improdutivas, tenho ideias simultâneas sobre diferentes
- capítulos num soluço desenfreado de frases inteiras. Começo a fazer planos para o futuro,
- enxergo possibilidades de trabalho, traço estratégias de fuga. Minhas cadeias de pensamento
- são longas e cada vez mais complexas, flutuo sobre o asfalto como se estivesse entupido de
- nootrópicos, marcho offline entre os transeuntes, agora já enxergo o caminho sem aplicativos
- ou mapas, e este caminho é o da iluminação: sou tomado por um despertar que descortina as
- coxias do teatro e arranca dos prédios suas fachadas. Um satori entre as árvores da Praça da
- República.
- Logo a compreensão dá lugar a mania, o pânico, a fisgada no bolso vazio, o
- terremoto invisível, o incêndio sem fuga, o ar rarefeito: eu preciso conferir o meu e-mail. Corro
- para casa onde descubro que ninguém escreveu, o dinheiro ainda não saiu, aquela notícia
- não chegou.
- Acaba a tarde inútil, abro as janelas e vejo o engarrafamento lá embaixo. Dentro dos
- carros, eles olham seus celulares tentando esquecer alguma coisa.
Disponível em:http://www1.folha.uol.com.br/colunas/joaopaulocuenca/2015/06/1641187-pedaco-de-mim.shtml Acesso em: 5 abril 2016.