Leia o texto com atenção para responder às questões de 1 a 10.
Os parágrafos foram numerados de 1 a 18.
A GUERRA DOS MAUS E DOS BONS
1 Por que será que o mal vence (ou parece vencer) o bem?
2 Se o bem é tão bom, por que o mal, que é mau, vive acuando o bem?
3 Se o bem causa prazer e o mal causa dor, ansiedade, pânico, horror e morte, por que os seres humanos não derrotam o mal com o bem?
4 Lembro-me de ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel sobre o mal que os bons fazem. Era algo intrigante e me assustei quando li isso a primeira vez. Então, alguém com as melhores intenções pode desencadear dramas e tragédias? O inferno está mesmo cheio de boas intenções?
5 Quando foi que o bem ganhou uma guerra?
6 Essa já é uma pergunta insidiosa, pois quem se mete numa guerra para lutar tem que sangrar e matar, e isso é o mal em sua forma mais dura. Foi assim nas Cruzadas, foi assim na Inquisição, foi assim nas guerras de independência, foi assim nos conflitos contra o nazismo e outros totalitarismos. O guerrilheiro vem com aquele papo de Guevara, de que tem que matar sem perder a ternura; tem gente que acha isso bonito, desde que seja ele a exercer a “ternura” sobre outros.
7 Sim, tem o caso de Gandhi, que moveu guerra pacífica contra o violento e opressor império britânico e ganhou. Isso nos dá algum alento. Mas por que será que o mal vence (ou parece vencer), como atestam diariamente os jornais?
8 Cabisbaixo, sussurro para mim mesmo: essa é uma luta desigual.
9 É aí a raiz do problema. A luta entre bem e mal é uma luta desigual, repito. O bem não pode, não deve usar as armas do mal e está eticamente impedido de fazê-lo. Se o bem usar as armas do mal, transforma-se em mal. Sim, há o caso da “legítima defesa”, a hora em que o instinto de vida se sobrepõe ao instinto de morte. Isso tanto no plano pessoal quanto nas guerras de resistência. Mas aí, o mal e o bem de novo se misturaram.
10 E como se misturam! Então, não há uma porção de registros históricos da luta entre o bem e o bem? Um bem que se julga mais bem que o outro bem e que se julga tão mais bem que o outro bem que, para ele, o outro bem é o mal.
11 Salomão asseverou e Freud confirmou. “O homem é mau desde a sua meninice”. Que fazer? Ambos eram sábios. E nós?
12 Há males que vêm para o bem? Há. Dizem. Então, nesse caso, o mal é um bem, logo o mal não é tão mau assim.
13 Posso combater o mal só com as armas do bem?
14 Se subirmos os morros e conversarmos franciscanamente com o tráfico, como vai ser? Talvez facilite se eu subir o morro levando saúde, escolas, moradia e outras formas de bem. Acredito até que a maioria da população agradeça, feliz, e volte a acreditar no bem. Mas haverá sempre alguém, um núcleo que faz do mal o seu modo de vida. Talvez não somente porque tais pessoas sejam de natureza perversa, mas porque o mal produz resultados mais rápidos. Na corrida entre o bem e o mal, o bem é a tartaruga e o mal é Aquiles. Mas, quem sabe, haja alguma esperança, já que na Grécia um filósofo andou dizendo que Aquiles não alcançará jamais a tartaruga...
15 É uma aposta ou um simples paradoxo de Zenão?*
16 O que é o mal para mim é o mal para você? Bem ou mal, somos todos bons e maus.
17 Bem, não sei se fiz bem em começar este texto. E como não há mal que sempre dure, fico por aqui.
18 Ainda bem.
(SANT’ANNA, Affonso Romano de. Estado de Minas ─ Cultura ─ 22/7/2007. Adaptado)
* Zenão (séc. V a.C.): Filósofo grego, criador da dialética. Inventou uma parábola em que, numa corrida, caso a tartaruga saísse na frente, Aquiles jamais a alcançaria, pelo simples fato de que não existe movimento e nem tempo ─ o que traz em si a eterna contradição.
Levando em conta a regência do verbo “lembrar” em “Lembro-me de ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel [...]” (início do 4º parágrafo), outra construção com o verbo “lembrar” está correta na seguinte alternativa:
Lembro de ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel.
Lembro-me ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel.
Lembro ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel.
Eu lembro de ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel.
Eu me lembro ter lido, há muito, um texto de Bertrand Russel.