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A palavra em que a acentuação ocorre unicamente em vista da...

A gente não quer só comida,

a gente quer postar e quer ganhar like


Viva a internet. Antigamente, era preciso berrar, de

preferência de cima de um montinho, aquilo que você queria

tornar público. Se fosse um sermão, era preciso descolar uma

montanha. Ainda assim, não se conseguia angariar muita

5 gente. Jesus, por exemplo, foi o "influencer" mais popular

da era pré-digital e só conseguiu juntar 11 seguidores em vida.

Parece que tinha um décimo segundo, mas deu unfollow.

A internet operou uma revolução. Qualquer um consegue

atingir o mundo inteiro. "Quantos talentos desconhecidos vão

10 surgir!", pensou-se. "Quanta ciência! Quanta poesia!" Ledo

engano.

"Desde que meu bebê nasceu não consegui tempo pra

fazer cocô!", postou hoje de manhã a mãe de um recém-

nascido. "Sem tempo pra nada!" Embora não tenha

15 conseguido tempo pra fazer cocô, vale notar que ela conseguiu

postar essa frase no Facebook e, em seguida, responder aos

comentários, o que deixa muito claro quais são as prioridades

da minha geração.

Sim, faço parte dela, e minhas redes sociais não me deixam

20 negar. Acabei de postar no Instagram um pedaço do meu

sapato pisando sobre um azulejo com a legenda "o chão que

eu piso". O que eu quero dizer com essa estupidez? Menor

ideia. Mas acho que tem menos a ver com o que a gente quer

dizer e mais com o que a gente quer sentir.

25 Alguma coisa acontece no meu coração cada vez que eu

recebo um like. Há quem chame essa coisa de dopamina, o

hormônio da recompensa. Antes do advento do like, a gente

recebia raras recompensas. Era preciso tirar uma nota dez,

fazer um golaço, ganhar uma promoção, enfim, era preciso

30 fazer alguma coisa que prestasse. E eis que o demônio

inventou o like – a dopamina ao alcance dos dedos. Basta um

clique.

Todo mundo virou junkie. O like é a nova heroína. Olha pro

seu lado. Um pai posta que ama passar tempo com o filho

35 enquanto o bebê torra ao sol, desesperado. Um espectador

posta que tá amando ver o show de rock que ele não vê, um

insone posta que não tá conseguindo dormir sem perceber que

não dá pra postar e dormir ao mesmo tempo. Não importa.

Entre dormir e colher like, ela prefere o like. Tudo, Simba, tudo

40 o que o sol toca, a comida, o drink, o cachorro, o filho, o chão,

o teto, tudo passou a ser visto como fonte indireta de

dopamina.

Nesses momentos é bom lembrar da frase do cacique

Seattle: "Quando a última árvore tiver caído, quando o último

45 rio tiver secado, quando o último peixe for pescado, vocês vão

entender que não dava pra comer like”.

Unflllow : deixar de seguir

Like : gostar, curtir

Junkie: viciado

Gregório Duvivier ( 20/11/2017)

A palavra em que a acentuação ocorre unicamente em vista da presença do hiato é


A

preferência.


B

público.


C

bebê.


D

caído.


E

só.