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De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa, o...

Entrevista com Frédéric Martel


Uma guerra mundial pelo conteúdo dos meios

de comunicação se trava pela conquista do público

dentro e fora dos países criadores. Batalhas se

desenrolam pelo domínio da notícia, do formato de

5 programas de TV e pela exibição de filmes, vídeos,

música, livros. Nesse processo, um gigante domina:

os Estados Unidos, com sua capacidade de produzir

cultura de massas que agrada ao grande público

em todos os continentes. Essa penetração cultural

10 americana, que muitos críticos preferem chamar de

imperialismo, leva os filmes, a música e a televisão

americana para o mundo. Sua arma é o inverso

da alta cultura, da contracultura, da subcultura, de

nichos especializados. Visa o público em geral,

15 cultura de massa, de milhões. Tornou-se a cultura

internacional dominante, principal, a chamada

mainstream, conforme o título do livro escrito pelo

sociólogo francês Frédéric Martel. Para escrever

Mainstream, ele percorreu 30 países durante cinco

20 anos, entrevistou mais de 1.200 pessoas em todas

as capitais do entertainment, analisou a ação dos

protagonistas, a lógica dos grupos e acompanhou a

circulação internacional de conteúdo.

É um imperialismo diferente daquele político e

militar. É uma espécie de imperialismo cultural que

é bem recebido no mundo. A esse respeito, afirma

Frédéric Martel: “É o que basicamente chamamos

de soft power. Soft power significa influenciar as

pessoas com coisas legais. Você é amigável,

30 não é contundente. Você tem as forças armadas,

tem a diplomacia tradicional e grandes empresas

econômicas, que formam o hard power, e tem o soft

power, que influencia as pessoas através de filmes,

de livros, da internet e de valores.”

35 “A língua é importante. Eu acredito — e essa é

a principal conclusão do meu livro — que, no mundo

em que estamos entrando, que reúne globalização e

digitalização, a língua é importante. E eu acredito que

a batalha, a luta, mesmo a guerra de conteúdo, será

40 uma batalha a respeito da cultura nacional. Você pode

ouvir Lady Gaga, gostar de Avatar e ler O Código

Da Vinci, mas, no final das contas, a maior parte

da cultura que você consome e ama geralmente é

nacional, local, regional, e não global. A cultura global

45 é apenas uma pequena parte do que você gosta.

Então, no final das contas, os americanos são os

únicos a poder prover essa cultura dominante global,

mas essa cultura dominante global continua pequena.

Por quê? Porque a língua é muito importante,

50 porque a identidade é muito importante. Quando

você compra um livro de não ficção, quer saber o

que acontece aqui, no seu país, e não na Coreia do

Sul, por exemplo. Na Coreia do Sul você quer ouvir

K-pop, que é a música pop coreana, e ver um drama

55 coreano, e não ouvir uma música brasileira. Portanto,

nós estamos em um mundo cada vez mais global,

mas, ao mesmo tempo, a cultura ainda é e será muito

nacional. Para resumir as coisas, eu diria que todos

temos duas culturas: a nossa e a americana.”

60 “Nós, como europeus, temos o mesmo tipo de

relação que você, como brasileiro, tem com os EUA.

Nós os amamos e odiamos. É uma complicada relação

de amor e ódio. Nós esperamos que eles sejam

como são; nós queremos criticá-los, mas, ao mesmo

65 tempo, nós protestamos contra eles com tênis Nike

nos pés. Nós trabalhamos para ser um pouco como

eles, muito embora nós queiramos manter nossa

identidade e cultura. E, a propósito, a boa notícia é

que o debate no mundo hoje e no futuro não será

70 entre nós — brasileiros, franceses, europeus — e os

americanos. Será entre todos nós. O que eu quero

dizer é que hoje não há apenas dois povos: nós e os

EUA. O mundo é muito mais complicado, com países

emergentes, que serão fundamentais nesse novo

75 jogo.”

“Para resumir, afirma Martel, eu diria que os

EUA continuarão sendo peça importante da guerra

de conteúdo, podemos dizer, nos próximos anos e

décadas. Eu não acredito e não compro a ideia do

80 declínio da cultura americana. Eu acho que eles são

fortes e continuarão sendo fortes. Mas eles não são os

únicos no jogo. Agora temos os países emergentes,

que estão emergindo não só demográfica e

economicamente, como pensávamos. E eu fui um

85 dos primeiros a mostrar que eles estão emergindo

com sua cultura, sua mídia e com a internet.”

“Nesse mundo, a internet pode ser uma peça

importante. O Brasil, por exemplo, vai crescer com

a internet, com certeza. Criam-se ferramentas

90 inovadoras de alfabetização, por exemplo, em

comunidades, em favelas, em lugares onde os

moradores não têm acesso a uma livraria ou

biblioteca. Mas eles terão acesso à internet em lan

houses, por exemplo, e mesmo no telefone. Hoje,

95 todo mundo tem um telefone celular barato. Mesmo

na África, todos têm celulares com funções básicas.

Em cinco anos, todos terão um smartphone, pois os

preços estão caindo muito. Assim, todos poderão

acessar a internet pelo smartphone. Se você tem

100 acesso à internet, pode baixar livros, acessar a rede,

pode ver filmes e daí por diante.”

“A questão não é se essa tecnologia é boa,

conclui Martel. A questão é: ela não será boa ou

ruim sozinha. Ela será o que você, o povo, o governo

100 deste país e nós formos capazes de fazer com ela,

criando uma boa internet e uma maneira melhor de

ter acesso ao conteúdo através da internet.”



BOCCANERA, S. Entrevista concedida pelo sociólogo Frédéric Martel, Programa Milênio, Globo News. Disponível em: <http://www.conjur.com.br/2013-jan-25/ideias-milenio-fredericmartel-sociologo-jornalista-frances>. Acesso em: 10 nov. 2015. Adaptado.

De acordo com a norma-padrão da Língua Portuguesa, o emprego do sinal indicativo da crase é obrigatório no vocábulo destacado em:


A

O telefone celular exerce tal fascínio sobre a população que os aplicativos ligados a ele têm mobilizado pessoas, independentemente do nível de escolaridade.


B

O processo de desaceleração econômica mundial não causará impedimento a ascensão das novas tecnologias de comunicação e informação.


C

As pessoas mais jovens (de 16 a 25 anos) assistem a cerca de uma hora a menos de televisão por dia do que as mais velhas (acima dos 65 anos).


D

A Pesquisa Brasileira de Mídia, realizada em 2015, considerou a televisão o meio de comunicação mais utilizado pelos brasileiros.


E

Os meios de comunicação começam a criticar o excessivo uso da internet por usuários das diversas classes sociais.