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Em “Ainda há muitas experiências a conferir...” (l. 25), o...

TEXTO I

Nunca imaginei um dia


1 Até alguns anos atrás, eu costumava dizer frases como "eu jamais vou fazer isso" ou "nem morta eu faço aquilo", limitando

2 minhas possibilidades de descoberta e emoção. Não é fácil libertar-se do manual de instruções que nos autoimpomos. As vezes,

3 leva-se uma vida inteira, e nem assim conseguimos viabilizar esse projeto. Por sorte, minha ficha caiu há tempo.

4 Começou quando iniciei um relacionamento com alguém completamente diferente de mim, diferente a um ponto radical

5 mesmo: ele, por si só, foi meu primeiro nunca imaginei um dia". Feitos para ficarem a dois planetas de distância um do outro.

6 Mas o amor não respeita a lógica, e eu, que sempre me senti tão confortável num mundo planejado, inaugurei a instabilidade

7 emocional na minha vida. Prendi a respiração e dei um belo mergulho.

8 A partir daí, comecei a fazer coisas que nunca havia feito. Mergulhar, aliás, foi uma delas. Sempre respeitosa com o mar

9 e chata para molhar os cabelos, afundei em busca de tartarugas gigantes e peixes coloridos no mar de Fernando de Noronha.

10 Traumatizada com cavalos (por causa de um equino que quase me levou ao chão quando eu tinha oito anos), participei da minha

11 primeira cavalgada depois dos 40, em São Francisco de Paula. Roqueira convicta e avessa a pagode, assisti a um show do Zeca

12 Pagodinho na Lapa. Para ver o Ronaldo Fenômeno jogar ao vivo, me infiltrei na torcida do Olímpico num jogo entre Grêmio e

13 Corinthians, mesmo sendo colorada. Meu paladar deixou de ser monótono: comecei a provar alimentos que nunca havia provado

14 antes. E muitas outras coisas vetadas por causa do medo do ridículo receberam alvará de soltura. O ridículo deixou de existir

15 na minha vida.

16 Não deixei de ser eu. Apenas abri o leque, me permitindo ser um "eu" mais amplo. E sinto que é um caminho sem volta.

17 Um mês atrás participei de outro capitulo da série "Nunca imaginei um dia". Viajei numa excursão, eu que sempre rejeitei

18 essa modalidade turística. Sigo preferindo viajar a dois ou sozinha, mas foi uma experiência fascinante, ainda mais que a viagem

19 não tinha como destino um pais do circuito Elizabeth Arden (Paris-Londres-Nova York), mas um país africano, muçulmano e

20 desértico. Aliás, o deserto de Atacama, no Chile, será meu provável nunca imaginei um dia de 2010.

21 E agora cometi a loucura jamais pensada, a insanidade que nunca me permiti, o ato que me faria merecer uma camisa de

22 força: eu, que nunca me comovi com bichos de estimação, adotei um gato de rua. Pode colocar a culpa no espirito natalino

23 trouxe um bichano de três meses pra casa, surpreendendo minhas filhas, que já haviam se acostumado com a ideia de ter uma

24 mãe sem coração. E o que mais me estarrecer estou apaixonada por ele.

25 Ainda há muitas experiências a conferir fazer compras pela internet, andar num balão, cozinhar dignamente, me tatuar,

26 ler livros pelo kindle, viajar de navio e mais umas 400 coisas que nunca imaginei fazer um dia, mas que já não duvido. Pois tem

27 essa também: deixei de ser tão cética.

28 Já que é improvável que 2010 seja diferente de qualquer outro ano, que a novidade sejamos nós.


MEDEIROS, Martha. Feliz por nada. 43ed. – Porto Alegre, RS: LP&M, 2012.

Em “Ainda há muitas experiências a conferir...” (l. 25), o verbo em destaque foi empregado corretamente, obedecendo às regras de concordância verbal. Assinale a alternativa em que a obediência a essas regras não foi verificada.


A

Devem haver muitas experiências novas a serem vividas.


B

Ela tinha viajado havia três semanas.


C

Muitos haverão de ter a chance de arriscar mais em suas vidas.


D

Leitores havia que ainda não adquiriram um kindle.