

Seu próximo nível começa aqui
Seu desenvolvimento não pode ter limites. Garanta sua Assinatura Ilimitada e libere uma preparação completa com os melhores professores do Brasil.
Texto II
Estojo escolar
Noite dessas, ciscando num desses canais a
cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas,
bastava telefonar e eu receberia um notebook
capaz de me ajudar a fabricar um navio, uma estação
5 espacial.
Minhas necessidades são mais modestas: tenho
um PC mastodôntico, contemporâneo das cavernas
da informática. E um laptop da mesma época que co-
meça a me deixar na mão. Como pretendo viajar es
10 ses dias, habilitei-me a comprar aquilo que os caras
anunciavam como o top do top em matéria de computador
portátil.
No sábado, recebi um embrulho complicado que
necessitava de um manual de instruções para ser
15 aberto. Depois de mil operações sofisticadas para
minhas limitações, retirei das entranhas de isopor o
novo notebook e coloquei-o em cima da mesa. De
repente, como vem acontecendo nos últimos tempos,
houve um corte na memória e vi diante de mim o meu
20 primeiro estojo escolar. Tinha 5 anos e ia para o jardim
de infância.
Era uma caixinha comprida, envernizada, com
uma tampa que corria nas bordas do corpo principal.
Dentro, arrumados em divisões, havia lápis coloridos,
25 um apontador, uma lapiseira cromada, uma régua de
20 cm e uma borracha para apagar meus erros.
Da caixinha vinha um cheiro gostoso, cheiro que
nunca esqueci e que me tonteava de prazer. Fechei o
estojo para proteger aquele cheiro, que ele ficasse ali
30 para sempre, prometi-me economizá-lo. Com avare
za, só o cheirava em momentos especiais.
Na tampa que protegia estojo e cheiro havia
gravado um ramo de rosas muito vermelhas que se
destacavam do fundo creme. Amei aquele ramalhete
35 – olhava aquelas rosas e achava que nada podia ser
mais bonito.
O notebook que agora abro é negro, não tem rosas
na tampa e, em matéria de cheiro, é abominável.
Cheira vilmente a telefone celular, a cabine de avião,
40 ao aparelho de ultrassonografia onde outro dia uma
moça veio ver como sou por dentro. Acho que piorei
de estojo e de vida.
CONY, C. H. Crônicas para ler na escola. São Paulo: Objetiva, 2009. Disponível em:<https://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao /
No Texto II, o sentido denotativo e o sentido conotativo convivem.
O trecho do texto em que há somente denotação é:
“Noite dessas, ciscando num desses canais a cabo, vi uns caras oferecendo maravilhas eletrônicas” (l. 1-3)
“Minhas necessidades são mais modestas” (l. 6)
“contemporâneo das cavernas da informática”. (l. 7-8)
“retirei das entranhas de isopor o novo notebook e coloquei-o em cima da mesa.” (l. 16-17)
“houve um corte na memória e vi diante de mim o meu primeiro estojo escolar.” (l. 19-20)