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O período: “Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20...

Leia o texto abaixo e responda às questões propostas.


Em 1984, às vésperas de completar 82 anos, Carlos Drummond de Andrade se despedia da crônica, um dos gêneros que ajudou a consagrá-lo como um dos grandes escritores brasileiros.


CIAO


1 Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel

impresso notou que, no andar térreo do prédio onde

morava, um placar exibia a cada manhã a primeira

página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não

teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao

diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação.

O homem olhou-o, cético, e perguntou:

2 — Sobre o que pretende escrever?

3 ― tudo. Cinema, literatura, vida urbana,

moral, coisas deste mundo e de qualquer outro

possível.

4 O diretor, ao perceber que alguém, mesmo

inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele,

praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha

Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda

hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto,

comete as suas croniquices. Comete é tempo errado

de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o

momento deste contumaz rabiscador de letras

pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou)

e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia,

mas oportuno.

5 Creio que ele pode gabar-se de possuir um título

não disputado por ninguém: o de mais velho cronista

brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile

de 11 presidentes da República, mais ou menos

eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas

patentes militares que se atribuíram esse título. Viu

de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra

Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os

movimentos populares frustrados mas renascidos, os

ismos de vanguarda que ambicionavam reformular

para sempre o conceito universal de poesia; anotou

as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a

braço para serem entendidas pelos homens; as

pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer

um, que são certamente as melhores.

6 Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a

zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos

mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não

uma lição, mas um traço que comovesse ou

distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do

acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que

às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-

se a si mesmo antes que outros o façam.

7 Crônica tem essa vantagem: não obriga ao

paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir

uma posição correta diante dos grandes problemas;

não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do

repórter, responsável pela apuração do fato na hora

mesma em que ele acontece; dispensa a

especialização suada em economia, finanças,

política nacional e internacional, esporte, religião e o

mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o

cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico

etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que

não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se

exige do cronista geral a informação ou comentários

precisos que cobramos dos outros. O que lhe

pedimos é uma espécie de loucura mansa, que

desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo

e não trivial e desperte em nós a inclinação para o

jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito.

Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na

divagação. Não se compreende, ou não compreendo,

cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de

grupo, porque a crônica é território livre da

imaginação, empenhada em circular entre os

acontecimentos do dia, sem procurar influir neles.

Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de

sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é

limitado: minutos no café da manhã ou à espera do

coletivo.

8 Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro

estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de

vocês já teria nascido nos anos a.C. de 1920? duvido)

não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma

delas ter aliviado a amargura de mãe que perdera a

filha jovem. Em compensação alguns anônimos e

inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É

para você não ficar metido a besta, julgando que seus

comentários passarão à História”. Ele sabe que não

passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e

esquecer as descalçadeiras.

9 Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer

em mais de seis décadas. Em certo período,

consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que

ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de

jornal, leitor implacável de jornais, interessado em

seguir não apenas o desdobrar das notícias como as

diferentes maneiras de apresentá-las ao público.

Uma página bem diagramada causava-lhe prazer

estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda

bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista

eram para ele (e são) motivos de alegria profissional.

As duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se

orgulha de ter pertencido - o extinto Correio da

Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por

seu conceito humanístico da função da Imprensa no

mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais

15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores

lembranças do velho jornalista.

10 E é por admitir esta noção de velho, consciente e

alegremente, que ele hoje se despede da crônica,

sem se despedir do gosto de manejar a palavra

escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua

doença vital, já agora sem periodicidade e com suave

preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o

seu jardim, pelo menos imaginário.

11 Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.


(ANDRADE, C. Drummond de. Fonte https:// www.revistabula.com/4103-a-ultima-cronica-dedrummond/)

O período: “Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.” (§ 4) está sintaticamente estruturado em sujeito (a parte grifada) e predicado (sem o grifo). Essa relação entre o sujeito e o predicado, como já ensinavam os autores clássicos, é a base para que os atos de comunicação tenham coerência e façam sentido.

O período abaixo que está mal estruturado, incompleto, porque só contém o sujeito, sem o predicado, é:


A

Quando o nobre cavalheiro passou a galope por baixo do camarote, diante do qual pouco antes fizera ajoelhar o cavalo, a mão alva e breve de uma dama deixou cair uma flor.


B

O cidadão que acordava cedo, preparava o lanche e saía de casa para trabalhar, não sem antes visitar os pais idosos e doentes que moravam perto da cidade.


C

Considerando que há pouca reserva de alimento e que as crianças precisam se alimentar, o prefeito, sensível ao problema, assinou um decreto que permitiu aumentar a despesa com alimentação.


D

Na expectativa de aprovar as reformas consideradas urgentes para o equilíbrio fiscal, foram tomadas algumas medidas essenciais.


E

Segurança pública, tema que invariavelmente é assunto nas rodas populares e nas elitizadas, levando as pessoas a defender inclusive a pena de morte para os crimes hediondos, tem sido uma preocupação constante dos poderes constituídos.