Imagem de fundo

“compulsória” (linha 34) por impositiva

1 A cultura somática de nosso tempo esvazia a

moralidade dos sentimentos em favor da moralidade do

corpo. O interesse por si mesmo, monopolizado pelos

4 cuidados com o corpo, vem desgastando, de forma

progressiva, a importância emocional do outro humano

próximo ou distante. Mas como continuamos a precisar do

7 outro para legitimar nossos ideais de eu, criamos um

impasse: menosprezamos o outro próximo, em seu papel de

avalista do que somos, e idealizamos o outro anônimo, cuja

10 preocupação emocional conosco é igual a zero.

Hoje, nem pai, nem padre, nem médico, nem

psicanalista funcionam como autoridade simbolicamente

13legítima para corrigir ou ratificar os rumos tomados pelas

práticas bioascéticas individuais. O que nos inspira são os

modelos impessoais dos artistas de sucesso ou das figuras

16de outdoors. Só que tais modelos são mudos e se

manifestam, apenas, quando se trata de nos convidar para

comprar mais um produto comercial ou industrial.

19 O corpo da publicidade não nos fala diretamente. Não

nos solicita sensorial ou emocionalmente, nem considera as

peculiaridades de nosso caráter ou de nossas histórias de vida

22ao provocar nosso desejo de imitá-lo. A publicidade não nos

acusa nem elogia, apenas seduz, em sua opacidade e

permanente mudança, como um ideal que devemos

25perseguir, independentemente das consequências

físico-emocionais que venhamos a sofrer. Não há, por

conseguinte, como saber qual o caminho certo da “virtude

28bioascética”, exceto se continuarmos a perseguir, de forma

maquinal, exaustiva, torturante, o corpo da moda. Até, é

claro, chegar a velhice e nada restar, salvo os grupos de

31terceira idade, última tentativa bioascética de “ser jovem,

vital, por dentro da moda!”.

A cultura somática fez do corpo o espelho da alma. O

34 corpo se tornou a vitrine compulsória, permanentemente

devassada pelo olhar do outro anônimo, de nossos vícios e

virtudes, fraquezas e forças.

37 Hoje somos o que aparentamos ser, pois a identidade

pessoal e o semblante corporal tendem a ser uma só e mesma

coisa. Quanto mais a personalidade somática se impõe como

40norma do ideal do eu, mais revelamos nossa alma ao outro,

sem chances da defesa pela ocultação.

O efeito dessa identificação pessoal pela banalização

43do eu corporal é o sentimento de que o gigantesco esforço

despendido na prática da bioascese é inútil, pois sempre

passa ao lado do alvo. Todas as privações sofridas em nome

46da boa forma, em última instância, convergem para as

experiências de irrelevância e futilidade do eu. O sujeito

superficial e uniforme sente que luta para sobreviver e se

49afirmar como bioidentidade singular. Mas, logo, logo, sente

que precisa desaparecer do campo do olhar do outro, se

quiser experimentar, por alguns momentos, a tranquilidade

52estar consigo sem a invasão persecutória do ideal da

fitness.


Jurandir F. Costa. A externalização da subjetividade. Internet:

<https://encantosemcontos.wordpress.com> (com adaptações).

Considerando a correção gramatical e a coerência das substituições propostas para vocábulos e trechos destacados do texto, julgue os itens que se seguem.

“compulsória” (linha 34) por impositiva


C

Certo


E

Errado