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1 A cultura somática de nosso tempo esvazia a
moralidade dos sentimentos em favor da moralidade do
corpo. O interesse por si mesmo, monopolizado pelos
4 cuidados com o corpo, vem desgastando, de forma
progressiva, a importância emocional do outro humano
próximo ou distante. Mas como continuamos a precisar do
7 outro para legitimar nossos ideais de eu, criamos um
impasse: menosprezamos o outro próximo, em seu papel de
avalista do que somos, e idealizamos o outro anônimo, cuja
10 preocupação emocional conosco é igual a zero.
Hoje, nem pai, nem padre, nem médico, nem
psicanalista funcionam como autoridade simbolicamente
13legítima para corrigir ou ratificar os rumos tomados pelas
práticas bioascéticas individuais. O que nos inspira são os
modelos impessoais dos artistas de sucesso ou das figuras
16de outdoors. Só que tais modelos são mudos e se
manifestam, apenas, quando se trata de nos convidar para
comprar mais um produto comercial ou industrial.
19 O corpo da publicidade não nos fala diretamente. Não
nos solicita sensorial ou emocionalmente, nem considera as
peculiaridades de nosso caráter ou de nossas histórias de vida
22ao provocar nosso desejo de imitá-lo. A publicidade não nos
acusa nem elogia, apenas seduz, em sua opacidade e
permanente mudança, como um ideal que devemos
25perseguir, independentemente das consequências
físico-emocionais que venhamos a sofrer. Não há, por
conseguinte, como saber qual o caminho certo da “virtude
28bioascética”, exceto se continuarmos a perseguir, de forma
maquinal, exaustiva, torturante, o corpo da moda. Até, é
claro, chegar a velhice e nada restar, salvo os grupos de
31terceira idade, última tentativa bioascética de “ser jovem,
vital, por dentro da moda!”.
A cultura somática fez do corpo o espelho da alma. O
34 corpo se tornou a vitrine compulsória, permanentemente
devassada pelo olhar do outro anônimo, de nossos vícios e
virtudes, fraquezas e forças.
37 Hoje somos o que aparentamos ser, pois a identidade
pessoal e o semblante corporal tendem a ser uma só e mesma
coisa. Quanto mais a personalidade somática se impõe como
40norma do ideal do eu, mais revelamos nossa alma ao outro,
sem chances da defesa pela ocultação.
O efeito dessa identificação pessoal pela banalização
43do eu corporal é o sentimento de que o gigantesco esforço
despendido na prática da bioascese é inútil, pois sempre
passa ao lado do alvo. Todas as privações sofridas em nome
46da boa forma, em última instância, convergem para as
experiências de irrelevância e futilidade do eu. O sujeito
superficial e uniforme sente que luta para sobreviver e se
49afirmar como bioidentidade singular. Mas, logo, logo, sente
que precisa desaparecer do campo do olhar do outro, se
quiser experimentar, por alguns momentos, a tranquilidade
52estar consigo sem a invasão persecutória do ideal da
fitness.
Jurandir F. Costa. A externalização da subjetividade. Internet:
<https://encantosemcontos.wordpress.com> (com adaptações).
Considerando a correção gramatical e a coerência das substituições propostas para vocábulos e trechos destacados do texto, julgue os itens que se seguem.
“compulsória” (linha 34) por impositiva
Certo
Errado