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Da vocação
01 Na vocação para a vida está incluído o amor, inútil disfarçar, amamos a vida. E lutamos por ela dentro e fora de nós
02 mesmos. Principalmente fora, que é preciso um peito de ferro para enfrentar essa luta na qual entra não só fervor mas uma
03 certa dose de cólera, fervor e cólera. Não cortaremos os pulsos, ao contrário, costuraremos com linha dupla todas as feridas
04 abertas. E tem muita ferida porque as pessoas estão bravas demais, até as mulheres, umas santas, lembra?
05 Costurar as feridas e amar os inimigos que odiar faz mal ao fígado, isso sem falar no perigo da úlcera, lumbago, pé
06 frio. Amar no geral e no particular e quem sabe nos lances desse xadrez-chinês imprevisível. Ousar o risco. Sem chorar, aprendi
07 bem cedo os versos exemplares, não chores que a vida / é luta renhida. Lutar com aquela expressão de criança que vai caçar
08 borboleta, ah, como brilham os olhos de curiosidade. Sei que as borboletas andam raras mas se sairmos de casa certos de que
09 vamos encontrar alguma… O importante é a intensidade do empenho nessa busca e em outras. Falhando, não culpar Deus,
10 oh! por que Ele me abandonou? Nós é que O abandonamos quando ficamos mornos. Quando a vocação para a vida começa
11 a empalidecer e também nós, os delicados, os esvaídos. Aceitar o desafio da arte. Da loucura. Romper com a falsa harmonia,
12 com o falso equilíbrio e assim, depois da morte – ainda intensos – seremos um fantasminha claro de amor.
TELES, Lygia Fagundes. Antologia escolar. Rio de Janeiro: Biblioteca do Exército, 1995, p. 147.
A preposição constante deste fragmento “Sem chorar, aprendi bem cedo os versos exemplares” (l. 06 e l. 07) estabelece, entre as duas orações, uma relação de subordinação que indica:
conformidade.
concessão.
finalidade.
modo.