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Em conformidade com o texto, os milhões de quartos...

Leia o texto para responder as questões 01, 02, 03, 04, 05, 06 e 07.


TABACARIA

Fernando Pessoa


Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.


Janelas do meu quarto,

Do meu quarto de um dos milhões do mundo que

ninguém sabe quem é (E se soubessem quem é, o que

saberiam?),

Dais para o mistério de uma rua cruzada

constantemente por gente,

Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,

Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente

certa,

Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos

seres,

Com a morte a pôr humidade nas paredes e cabelos

brancos nos homens,

Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela

estrada de nada.


Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.

Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,

E não tivesse mais irmandade com as coisas

Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este

lado da rua

A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida

apitada

De dentro da minha cabeça,

E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de

ossos na ida.


Estou hoje perplexo como quem pensou e achou e

esqueceu.

Estou hoje dividido entre a lealdade que devo

À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por

fora,

E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por

dentro.


Falhei em tudo.

Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse

nada.

A aprendizagem que me deram,

Desci dela pela janela das traseiras da casa,

Fui até ao campo com grandes propósitos.

Mas lá encontrei só ervas e árvores,

E quando havia gente era igual à outra.

Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei-de

pensar?

Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?

Ser o que penso? Mas penso ser tanta coisa!

E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não

pode haver tantos!

Génio? Neste momento

Cem mil cérebros se concebem em sonho génios

como eu,

E a história não marcará, quem sabe?, nem um,

Nem haverá senão estrume de tantas conquistas

futuras.

Não, não creio em mim.

Em todos os manicómios há doidos malucos com

tantas certezas!

Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou

menos certo?

Não, nem em mim...

Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo

não estão nesta hora génios-para-si-mesmo sonhando?

Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas –

Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,

E quem sabe se realizáveis,

Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de

gente?

O mundo é para quem nasce para o conquistar

E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda

que tenha razão.

Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.

Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades

do que Cristo,

Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant

escreveu.

Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,

Ainda que não more nela;

[...]


Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar

tabaco?),

E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.

[...]

O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na

algibeira das calças?).

Ah, conheço-o: é o Esteves sem metafísica.

(O dono da Tabacaria chegou à porta.)

Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e

viu-me.

Acenou-me adeus gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o

universo

Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o dono

da Tabacaria sorriu.


(Poesias de Álvaro de Campos. Fernando Pessoa. Lisboa: Atica, 1944-252)

Em conformidade com o texto, os milhões de quartos espalhados pelo mundo, metaforicamente, representam


A

as inúmeras carruagens enfileiradas num momento de partida.


B

as diversas pessoas que vivem distantes por todo o mundo.


C

os milhares de indivíduos que projetam suas ideias e sonham como gênios.


D

os quartos dos manicômios de indivíduos com problemas mentais.