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As vírgulas foram utilizadas para separar o aposto na...

Texto I


CHÃO DE FERRO

(fragmento)


1 A sala de refeições do internato, peça vasta e clara, era separada do saguão central e dum

pequeno corredor que dava no recreio dos menores por parede cega onde se abria porta vis-à-vis da

que ia em direção à passagem que terminava na saída para o pátio dos maiores. A da parede do

fundo, para a ucharia do Seixas, que servia também de refeitório para os inspetores e professores.

5 Os outros dois muros eram cheios de janelas e mais portas transponíveis ao dia, à noite, aos ruídos

do vento e ao marulhar urbano do bairro de São Cristóvão. Eram pintados de um verde-gaio a que a

luz dava profundidades e agilidades aquáticas. Dum lado, enorme relógio-armário. Do outro, a

reprodução da Ceia de Leonardo, sob a qual instalava-se o Quintino, à hora das refeições. Quatro

mesas imensas de mármore branco. Bancos sem encosto, aos lados, para os alunos. Cadeiras, nos

10 extremos: uma para o inspetor da divisão e a segunda outorgada ao cabeceira, isto é, a um aluno

escolhido entre os de comportamento exemplar, entre os graduados do batalhão escolar, ou entre os

puxa-sacos mais eméritos. Éramos servidos à francesa, dois garçons para cada mesa, camisa branca,

calça branca, avental branco – tudo rigorosamente lavado e engomado. Na sua maioria portugueses

e é por isto que aquilo tudo luzia e vivia escarolado e polido assim. Tinham cara uniforme, o mesmo

15 queixo azulado, o mesmo topete, a mesma pele mediterrânea e o sotaque. Eles se me confundem na

memória como tipo único. Separo apenas dois, sem lhes lembrar os nomes – que só me acodem suas

alcunhas. Um era alto, descarnado, ar langue de poeta (vai ver, poeta mesmo, como o seu colega

Korriscosso, de Eça de Queirós) – era o Mandioca. O outro, sua antítese, baixote e retaco, era

conhecido por Batatinha. Ficaram famosas a celeuma e a briga que tivera com outro empregado que

20 lhe dera um tiro na boca. A bala levara os dois incisivos centrais do maxilar inferior e, quando ele ria

(o que era frequente), mostrava dentro dum quadradinho claro a ponta da língua saudável e vermelha.

Bulha de empregados de colégio, tiro, ciúmes de uma criada do Quintino... Tudinho como no Ateneu

de mestre Pompeia.

Nas priscas eras dos meninos pobres de São Pedro e de São Joaquim, a comida da casa não

25 era lá grande coisa. Os cronistas registraram menus coloniais tornados famosos pela má qualidade.

Havia certa carne ensopada conhecida como serra-bode; havia a assada, dita a esbofeteada; um

camarão com arroz chamado ponto e vírgula e uma triste canjica denominada lágrimas de Caim. Já

nos tempos imperiais tudo melhora e Vieira Fazenda recorda as feijoadas das quintas-feiras, os

picadinhos com batata e azeitona dos sábados e o cozido suculento servido nos domingos sem saída

30 (estas eram quinzenais, no internato do século passado). No meu tempo, a boia era excelente. Lembro

com saudade (sempre partilhada por Aluísio Azevedo, Paiva Gonçalves e Florentino Sampaio Viana)

o arroz solto, macio, lépido e dourado de nossos almoços, arroz base, alicerce, arroz fundo musical

para o picadinho ou o bife de panela com quiabo, ou batata, ou cenoura, sempre com azeitona, sempre

avivado pelo pimentão; para os bolinhos de bacalhau escorrendo banha, para as postas de peixe frito,

35 para os grelhados com as rodelinhas de cebola ainda cruas dum lado e já torradas do outro. Pois foi

um destes pratos que engolimos às pressas, mastigando mal-mal, na expectativa das aulas que iam

começar às dez horas.

NAVA, Pedro. Chão de ferro. São Paulo: Companhia das Letras, 2012.

As vírgulas foram utilizadas para separar o aposto na alternativa:


A

“A sala de refeições do internato, peça vasta e clara, era separada do saguão central [...].” (linha 1)


B

“Os outros dois muros eram cheios de janelas e mais portas transponíveis ao dia, à noite, aos ruídos do vento e ao marulhar urbano do bairro [...].” (linhas 5-6)


C

“a reprodução da Ceia de Leonardo, sob a qual instalava-se o Quintino, à hora das refeições.” (linhas 7-8)


D

“[...] camisa branca, calça branca, avental branco – tudo rigorosamente lavado e engomado.” (linhas 12-13)