Imagem de fundo

Assinale a opção cujos termos sublinhados funcionam como...

A violência em Roraima é contra a imagem no espelho


Os venezuelanos encarnam o pesadelo real de que toda estabilidade é provisória e o pertencimento é sempre precário


Eliane Brum


1 Não se compreende a violência dos brasileiros

2 contra os venezuelanos sem entender o que é

3 estar na fronteira e se saber à beira do mapa,

4 a borda como o precipício que lembra a quem

5 se agarra ao lado de cá que há uma fera

6 rosnando no desconhecido. Com exceção dos

7 povos indígenas, a população não indígena de

8 Roraima é formada por migrantes recentes, a

9 maioria da segunda metade do século XX. E

10 sempre chegando de um outro lugar em que o

11 chão se tornou movediço embaixo dos pés.

12 Muitos não desembarcaram em Roraima

13 diretamente do lugar em que nasceram, mas

14 antes tentaram pertencer a outros pontos do

15 mapa e não puderam se fixar por falta de

16 trabalho ou outras faltas. Quem alcança um

17 estado como Roraima vindo das regiões mais

18 pobres do Brasil — ou das porções mais

19 pobres dos estados rico s— sabe que alcançou

20 uma espécie de território limite. Dali pra

21 frente não há mais para onde andar. Talvez o

22 que um brasileiro de Roraima vislumbre num

23 venezuelano desesperado e sem lugar seja o

24 retrato de si mesmo. Uma velha foto bem

25 conhecida empurrada para o fundo de uma

26 gaveta da qual ninguém quer lembrar, mas

27 que nunca pôde ser totalmente esquecida.

28 Diante dos venezuelanos famintos, doentes e

29 assustados, desejando desesperadamente

30 entrar, a imagem se materializa como um

31 espelho que é preciso destruir. O que

32 destroem no corpo do outro é a imagem de si

33 mesmos cujo retorno não podem aceitar.

34 A angústia de não pertencer rugia dentro da

35 maioria das pessoas que entrevistei em

36 Roraima, em diferentes momentos. Mas isso

37 jamais era admitido. Ao contrário. Como

38 costuma acontecer neste tipo de fenômeno,

39 ela se expressava como uma identidade feroz,

40 a de ser o único cidadão legítimo, o único com

41 o direito de estar ali, o único que trabalha e

42 quer progredir. Isso se manifestava em três

43 comportamentos clássicos: a hostilidade

44 contra estrangeiros de outra língua,

45 especialmente americanos, a desconfiança

46 com relação a brasileiros não migrantes, o

47 desejo de apagar as populações nativas,

48 ainda que pela assimilação ou pela supressão

49 de direitos. (...)

50 A identidade roraimense é fomentada na

51 população por velhas e novas elites locais a

52 partir da ideia de que o Brasil é contra eles

53 (ou os ignora ou só aparece para se meter

54 onde não devia, como na atual disputa pelo

55 fechamento da fronteira com a Venezuela), os

56 “gringos” querem tomar a Amazônia de seus

57 legítimos donos e os indígenas impedem o

58 progresso do estado e também de cada

59 indivíduo que ali chegou com o sonho de fazer

60 história, fortuna e, principalmente casa —

61 lugar de pertencimento para quem tanto

62 peregrinou pelo mapa do Brasil até finalmente

63 alcançar a sua borda. Essa é sempre a

64 condição de fronteira entre aqueles que as

65 disputam. (...) A fronteira é um espaço de

66 sobreviventes, que já conheceram o pior de

67 vários mundos, sofreram estigmas,

68 preconceitos e indignidades, e estão lutando

69 por um lugar e sabem muito bem o porquê.

70 (...)

71 A imagem dos venezuelanos

72 entrando e entrando, desesperados, miseráveis e

73 famintos, é a imagem que um migrante mais

74 teme para si mesmo. É também a prova de

75 que a estabilidade é sempre provisória, de

76 que é possível perder tudo mais uma vez. É a

77 evidência viva, encarnada, de que não há

78 lugar seguro, de que o pertencimento é

79 sempre precário. De que do outro lado da

80 borda, o abismo espreita com olhos injetados

81 de sangue. Quem viveu escorregando de

82 todos os mapas sente a dor dessa experiência

83 no corpo.

Fonte: https://brasil.elpais.com/brasil/2018/08/27/opinion.html Acesso em 06/09/2018. Adaptação.

Assinale a opção cujos termos sublinhados funcionam como sujeito da oração.


A

“...a imagem se materializa como um espelho que é preciso destruir.” (linhas 30-31)


B

“O que destroem no corpo do outro é a imagem de si mesmos cujo retorno não podem aceitar.” (linhas 31-33)


C

“É também a prova de que a estabilidade é sempre provisória, de que é possível perder tudo mais uma vez.” (linhas 74-76)


D

“...a borda como o precipício que lembra a quem se agarra ao lado de cá que há uma fera rosnando no desconhecido.” (linhas 04-06)