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As escolhas das palavras e expressões são estratégias...

TEXTO IV

Apelo


Amanhã faz um mês que a Senhora está longe

de casa. Primeiros dias, para dizer a verdade, não senti

falta, bom chegar tarde, esquecido na conversa de

esquina. Não foi ausência por uma semana: o batom

05 ainda no lenço, o prato na mesa por engano, a imagem

de relance no espelho.

Com os dias, Senhora, o leite primeira vez

coalhou. A notícia de sua perda veio aos poucos: a pilha

de jornais ali no chão, ninguém os guardou debaixo da

10 escada. Toda a casa era um corredor deserto, até o

canário ficou mudo. Não dar parte de fraco, ah,

Senhora, fui beber com os amigos. Uma hora da noite

eles se iam. Ficava só, sem o perdão de sua presença,

última luz na varanda, a todas as aflições do dia.

15 Sentia falta da pequena briga pelo sal no

tomate – meu jeito de querer bem. Acaso é saudade,

Senhora? Às suas violetas, na janela, não lhes poupei

água e elas murcham. Não tenho botão na camisa.

Calço a meia furada. Que fim levou o saca-rolha?

20 Nenhum de nós sabe, sem a Senhora, conversar com

os outros: bocas raivosas mastigando. Venha para casa,

Senhora, por favor.

(TREVISAN, Dalton. Mistérios de Curitiba. 5ª ed. Record. Rio de Janeiro, 1996.)

As escolhas das palavras e expressões são estratégias importantes na construção semântica do texto, principalmente em se tratando de um texto literário em que os vocábulos são, minuciosamente, selecionados. A partir disso, assinale a alternativa que apresenta informação INCORRETA quanto ao texto de Dalton Trevisan.


A

A construção do período “não lhes poupei água e elas murcham”, (l. 17 e 18), demonstra, por meio de uma catacrese, uma das consequências da ausência da mulher.


B

O uso reiterado de sujeito elíptico para marcar as ações do narrador sugere um sentimento de pequenez e de sofrimento do homem em relação à sua amada.


C

O emprego da expressão “última luz na varanda” (l. 14) estabelece também um sentido metafórico, ao expressar o estado de espírito do narrador sem a presença da Senhora.


D

A presença frequente do vocativo reforça o propósito principal do texto, explicitando, assim, o discurso persuasivo construído pelo narrador.