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Texto l ( Texto para as questões 1 a 7)
A crise da ecologia psíquica
1____O mundo é infinitamente complexo. Todo ato, por
mais simples, extrapola em muito a intenção de
quem o pratica; ao acender uma lâmpada ou abrir a
torneira, por exemplo, eu não só gero o efeito local
pretendido, mas aciono uma vasta e intrincada
cadeia de eventos cujas ramificações se alastram,
para a frente e para trás, numa miríade de outros
efeitos e desdobramentos. A crise ecológica é o
resultado conjunto – imprevisto e indesejado – de
10 uma infinidade de ações motivadas por escolhas e
desejos que, na sua origem, nada têm a ver com o
problema criado: a fumaça tóxica das usinas
chinesas movidas a carvão russo ilegalmente
produzido torna-se chuva ácida e o câncer
pulmonar dos coreanos; os gases emitidos por
carros americanos movidos a petróleo
venezuelano aceleram o derretimento das geleiras
groenlandesas que provoca a elevação do nível
dos oceanos. A interdependência dos fenômenos
20 ecológicos ignora as convenções da geopolítica.
– A conjectura de uma crise da ecologia psíquica é
a tese de que a degradação do mundo natural que
nos cerca tem um correlato em nosso mundo
interno. “Desejo sem ação gera pestilência”. O
psiquismo arcaico do animal humano – uma
herança, como o nosso corpo, do ambiente
evolutivo da espécie – não aceita de bom grado as
exigências e interdições da vida civilizada. Assim
como o metabolismo entre sociedade e natureza
30 no mundo moderno produziu a crise ambiental, de
igual modo a nossa natureza interna vem sofrendo
as consequências inadvertidas e perversas de uma
civilização em guerra com as pulsões instintivas e
indomadas da mente e calcada no ideal da
desanimalização da humanidade. A crise da
ecologia psíquica é fruto da severidade da renúncia
instintual imposta por um processo civilizatório
agressivamente calculista, o artifício e a hipocrisia
permeiam os vínculos erótico-afetivos enquanto a
40 competição feroz, a ansiedade e a ambição
irrestrita dominam o mundo da produção e
consumo. – Mas, se é verdade que algo nas
profundezas da alma humana – no nosso mais
remoto psiquismo – está sendo agredido e aviltado
pelo processo civilizatório, quais seriam as
evidências disso? Seria precipitado alegar que a
conjectura tem uma base empírica conclusiva, mas
alguns fatos relevantes sugerem que algo
semelhante possa estar ocorrendo. Nos países de
50 alta renda per capita, uma em cada cinco pessoas
em idade de trabalho sofre algum tipo de distúrbio
mental a cada ano, sendo aproximadamente 25%
delas acometidas por quadros severos, como
esquizofrenia e transtorno bipolar, e o restante por
doenças menos debilitadoras como depressão,
ansiedade, estresse pós-traumático e transtorno
de déficit de atenção (diagnosticado em cerca de
17% dos meninos estadunidenses até dez anos
contra menos de 5% no resto do mundo). Entre a
60 população abaixo de setenta anos, a soma dos
anos de vida perdidos por morte prematura e
invalidez (disability-adjusted life years) causada
por doenças mentais atinge 17,4 anos, contra 15,9
para o câncer e 14,8 para moléstias
cardiovasculares. Os suicídios superam as mortes
causadas por acidentes em estradas nos Estados
Unidos, Alemanha e Inglaterra. “Nas sociedades
ocidentais”, resume um estudo recente, “a
depressão e a ansiedade são responsáveis por
70 mais infelicidade [misery] do que as doenças
físicas e por muito mais infelicidade do que a
oriunda da pobreza e do desemprego.” As
irrupções recorrentes de atos violentos praticados
sem motivação aparente e a explosão da demanda
por drogas legais e ilegais – antidepressivos
(consumidos por cerca de 10% dos
estadunidenses), ansiolíticos, soníferos,
narcóticos, estimulantes e substâncias psicoativas
– são outras tantas evidências de que o mundo
80 moderno possivelmente padece de uma
degradação do ambiente psicossocial análoga à
devastação do ambiente físico. – A encíclica
Laudato si' do papa Francisco – uma bela e bemvinda
contribuição da Igreja católica à causa
ambiental – enuncia com exemplar clareza a
conjectura da crise da ecologia psíquica: “os
desertos externos estão aumentando no mundo
porque os desertos internos se tornaram tão
vastos”.
Eduardo Giannetti
(Trópicos utópicos: uma perspectiva brasileira da crise
civilizatória. São Paulo: Cia das Letras, 2016)
O emprego de adjetivos pátrios pelo autor tem o propósito de destacar o seguinte aspecto:
localização dos maiores agressores ambientais
indicação dos principais territórios de recuperação
comparação entre espaços de ação positiva e negativa
sustentação do caráter global dos processos descritos