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Em relação à construção e à tipologia do texto acima, é...

Texto I

Sobre a autoestrada


Durante horas, debruçado no gradil da passarela acima da autoestrada, olhava o fluxo dos carros que, como o rio da sua infância – tão distante e tão próximo – não parava de escorrer. Às vezes, como então, cuspia, sem porém ouvir o leve baque que denunciaria a chegada do cuspe, abafado pelo som cavo e constante daquele avançar sem rodamoinhos.

Havia dias em que, mais cansado, sentava-se. E balançando de leve os pés pendentes no ar, desejava de forma incompleta um caniço pequeno, um fio de linha que daria outro sentido ao seu estar ali.

Também pensava, só pensava, sem se atrever, como seria libertador tirar a camisa. Sentia os dedos afastando sensualmente as beiradas da casa, passando por elas a curva do botão, forçando de leve até que deslizasse por inteiro, e logo descendo ao botão seguinte, até abrir o peito ao ar, aquele ar que subia de baixo morno como um hálito. Despido o tronco, mergulharia como tantas vezes havia feito, a pele eletrizada pelo choque frio, abrigado em eternos minutos pela escuridão da água e dos olhos fechados, e logo expulso para a luz.

Era um pensamento apaziguador, do qual emergia em braçadas, respirando fundo. O corpo continuava fechado no casulo da camisa, em alguma parte havia ainda um querer. Mas sentia-se lavado e lasso, já podia voltar para casa. De onde, no dia seguinte, tomaria outra vez o caminho da passarela.

(COLASANTI, Marina. Hora de alimentar as serpentes. São

Paulo: Global Editora, 2013, p.141)

Em relação à construção e à tipologia do texto acima, é correto afirmar que:


A

nota-se um narrador personagem que centraliza a apresentação das ações em uma perspectiva intimista.


B

a narrativa apresenta um recorte temporal limitado ao presente para descrever as ações e não promove um diálogo com outros tempos.


C

com o foco narrativo em terceira pessoa, o narrador prioriza desenvolver um olhar para o psicológico do personagem.


D

não se percebe uma sequência narrativa no texto em função da limitação do espaço e da exclusividade do narrador.