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"No colégio onde fiz o segundo grau, havia um rapaz que...

Texto para responder às questões de 45 a 60


Memórias de um aprendiz de escritor


Escrevo há muito tempo. Costumo dizer que, se ainda não aprendi - e acho mesmo que não aprendi, a gente nunca para de aprender-, não foi por falta de prática. Porque comecei muito cedo. Na verdade, todas as minhas recordações estão ligadas a isso, a ouvir e contar histórias. Não só as histórias dos personagens que me encantaram, o SaciPererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Tarzan, os piratas. Mas também as minhas próprias histórias, as histórias de meus personagens, essas criaturas reais ou imaginárias, com quem convivi desde a infância.

"Na verdade", eu escrevi ali em cima. Verdade é uma palavra muito relativa para um escritor de ficção. O que é verdade, o que é imaginação? No colégio onde fiz o segundo grau, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso. Fama, não; ele era mentiroso. Todo mundo sabia que ele era mentiroso. Todo mundo, menos ele.

Certa vez, o rádio deu uma notícia alarmante: um avião em dificuldades sobrevoava Porto Alegre. Podia cair a qualquer momento. Fomos para o colégio, naquele dia, preocupados; e conversávamos sobre o assunto, quando apareceu ele, o Mentiroso. Pálido:

- Vocês nem podem imaginar!

Uma pausa dramática, e logo em seguida:

- Sabem esse avião que estava em perigo? Caiu perto da minha casa. Escapamos por pouco. Gente, que coisa horrível!

E começou a descrever o avião incendiando, o piloto gritando por socorro ... Uma cena impressionante. Aí veio um colega correndo, com a notícia: o avião acabara de aterrissar, são e salvo. Todo mundo começou a rir. Todo mundo, menos o Mentiroso:

- Não pode ser! - repetia incrédulo, irritado. - Eu vi o avião cair!

Agora, quando lembro este fato, concluo que não estava mentindo. Ele vira, realmente, o avião cair. Com os olhos da imaginação, decerto; mas para ele o avião tinha caído, e tinha incendiado, e tudo o mais. E ele acreditava no que dizia, porque era um ficcionista. Tudo que precisava, naquele momento, eram um lápis e um papel. Se tivesse escrito o que dizia, seria um escritor; como não escrevera, tratava-se de um mentiroso. Uma questão de nomes, de palavras.


SCLIAR, Moacyr. Memórías de um aprendiz de escritor. São Paulo: Ed. Nacional, 1984.

"No colégio onde fiz o segundo grau, havia um rapaz que tinha fama de mentiroso." e "Fama, não; ele era mentiroso." pode-se afirmar que:


A

há uma oração principal e uma subordinada substantiva predicativa, no primeiro trecho; no segundo, uma oração principal e uma coordenada sindética.


B

o ONDE, no primeiro trecho, retoma o sujeito da oração principal, e introduz a oração coordenada do segundo


C

há duas orações subordinadas substantivas introduzidas, no primeiro trecho, por um pronome relativo e, no segundo, por uma conjunção de valor causal.


D

no primeiro trecho, há uma oração principal e duas subordinadas adjetivas; no segundo, duas orações coordenadas: uma assindética e outra sindética explicativa.