Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo. Os destaques ao longo do texto estão citados nas questões.
O futuro da homeopatia
- O médico alemão Samuel Hanehmann criou a homeopatia no início do século 19 como
- uma alternativa razoável ____ medicina convencional da época, cuja terapia mais comum era a
- sangria: abrir cortes nos doentes na esperança ____ a hemorragia reestabelecesse o equilíbrio
- aos fluidos corporais. Tal insanidade era tida como cura para qualquer coisa, de gripe a
- convulsões, e – portanto – foi praxe na Europa por 2 mil anos.
- Hanehmann baseou sua tese em dois princípios. O primeiro é o de que semelhantes curam
- semelhantes: a crença de que o remédio ideal para um sintoma é alguma substância que cause
- esse sintoma. Por exemplo: se você tem rinite alérgica, a ingestão de uma pequena quantidade
- de cebola supostamente faria seus olhos pararem de lacrimejar. O antraz, toxina produzida pela
- bactéria Bacillus anthracis, que causa feridas na pele, seria capaz de curar espinhas, furúnculos
- etc. Há até um caso documentado de médico que receitou pedaços do muro de Berlim para uma
- mulher depressiva – afinal, é inegável que a construção deprimiu os berlinenses.
- O segundo princípio é o da potenciação, isto é, a substância é diluída em água, álcool ou
- açúcar muitas e muitas vezes. A diluição mais comum é a chamada C30, o que significa que a
- substância ativa foi diluída 30 vezes na proporção de 100 para 1. “Para conter uma única
- molécula de substância ativa, a pílula homeopática nessa diluição teria que ter o diâmetro
- equivalente ____ distância entre o Sol e a Terra [149,6 milhões de quilômetros]”, diz Edzard
- Ernst, professor emérito da Universidade de Exeter, na Inglaterra. E completa: “os remédios
- homeopáticos mais comuns não contêm uma única molécula de princípio ativo”.
- Não é à toa, no entanto, que a homeopatia se popularizou: entre sangrar até ____ morte
- e ingerir algumas gotas de água ou álcool, a segunda alternativa é melhor. Cebola, antraz ou
- muro de Berlim não farão nenhum efeito – principalmente na diluição C30 –, mas uma consulta
- com um médico atencioso, que prescreve repouso e deixa seu sistema imunológico funcionar, é
- mais recomendável do que passar uma navalha no braço. De lá até aqui, felizmente muita coisa
- mudou. Da mesma forma que a tecnologia aeronáutica foi do 14 Bis ao pouso na Lua em 60
- anos, a medicina convencional superou Heródoto e as sangrias. Atualmente, toda droga passa
- por três rodadas de verificação em humanos antes de chegar às farmácias. Elas servem para
- determinar como ela é metabolizada e excretada, descobrir seus efeitos colaterais, estabelecer
- a dosagem ideal para cada doença e faixa etária etc.
- Ao longo de todo o processo, os médicos e farmacêuticos tomam três precauções para
- evitar conclusões enviesadas. Primeiro, a amostra de voluntários é dividida em dois (grupos de
- comparação). Metade toma o remédio em fase experimental; a outra metade toma um remédio
- já existente no mercado ou um placebo, ou seja, um comprimido ou injeção falsos, que não
- contêm o princípio ativo. Os voluntários devem ser sorteados entre os dois grupos
- (aleatorização). Por fim, o ideal é que o experimento seja duplo-cego, ou seja: que, durante sua
- realização, nem os cientistas nem os voluntários saibam qual é o grupo que tomou placebo e
- qual é o grupo que tomou o remédio real. Assim, a chance de uma falcatrua passar batida é
- baixa. Ou o remédio funciona, ou não.
- Dado que a homeopatia permanece popular de sua criação até hoje, é imprescindível que
- sua eficácia seja analisada com o mesmo critério e cuidado dos remédios convencionais. Da
- mesma forma que a sangria caiu em desuso quando foi estabelecido que ela faz mais mal do que
- bem, é essencial que a população tenha acesso a estudos confiáveis sobre a eficácia da técnica
- de Hanehmann para decidir se deve usá-la ou não.
(Disponível em: https://super.abril.com.br/especiais/o-novo-obscurantismo/ – texto adaptado especialmente para esta prova.)