Instrução: As questões de números 01 a 10 referem-se ao texto abaixo.
A literatura é capaz de transformar o seu mundo?
- Não sou muito dada ___ inícios convensionais de ano. Recomeço tantas vezes num ano só e
- sempre em datas imprevistas que não vejo muito sentido em festejar um dia específico do
- calendário. E o fato de não encontrar sentido na comemoração da data não me torna nem melhor
- nem pior do que ninguém. Mas como de algum modo ___ maioria das pessoas para nessa época
- de final de ano para pensar na vida e promover um recomeço simbólico, quero dar uma sugestão.
- Além das metas de sempre – parar de fumar, perder uns quilos, matricular-se na academia de
- ginástica, etc. –, minha proposta é que cada um de nós se arrisque a descobrir a literatura. Tenha
- a coragem de chutar para o ano que passou a surrada desculpa do “não tenho tempo para ler” e
- se carregar para o futuro com espaço para o novo que vem das letras.
- No Paiol Literário, um evento que leva a Curitiba escritores para uma entrevista pública, há
- duas perguntas clássicas: a literatura é capaz de transformar o mundo? Qual é a sua importância
- na vida cotidiana de cada um? Quem as criou foi o jornalista, crítico literário e escritor José
- Castello, uma das pessoas mais gentis que andam por esse mundo.
- Sérgio Sant’Anna, autor de Um Crime Delicado e O Voo da Madrugada, responde que a
- literatura dá ao leitor uma possibilidade imperdível: “Ler não é só adquirir conhecimento ou
- experiência de vida. É também a possibilidade de ter outra vida, de viver o imaginário. E não é só
- o escritor que tem isso. O leitor também tem. Ele é um cara que vive dupla ou triplamente”. E
- acrescentou: “A literatura é um ato de prazer, que não deve ter segundas intenções. Ela dá aos
- leitores um espaço muito maior. Se você está lendo um livro, se vê obrigado a criar junto com
- ele, algo que, na televisão, não existe. Na TV, você pega as coisas mais mastigadas, uma torrente
- de anúncios e de segundos interesses. É muito ruído”.
- Silviano Santiago sustenta que, ao ler, o leitor se apropria daquele mundo e o torna seu, .........
- “o processo de leitura é um exercício de alteridade. É você entrar em um determinado mundo que
- não é o seu, no qual se entra muitas vezes por um processo de surpresa. Você não esperava
- aquilo de maneira alguma e, de repente, entra e se encanta com aquele mundo. Quanto mais se
- entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo. O leitor
- entra naquele mundo, mais se apropria dele, mais torna aquele mundo você mesmo. O leitor
- possibilidade de transformação, seja da realidade imediata, a realidade do mundo, seja ainda e,
- sobretudo, de si próprio”.
- A literatura nos dá muito. Mas não promete nada. É o que declara Luís Henrique Pellanda: “A
- literatura não promete felicidade alguma e não nos oferece garantias de finais felizes, nada disso.
- Ela nos amplia a vista de casa, nos mostra o outro e exige que nos comparemos a ele, que nos
- analisemos e, de alguma forma, promovamos reformas internas”.
- No Brasil, um país onde se lê tão pouco e onde metade dos adolescentes tem dificuldades para
- interpretar um texto, acredito que é preciso profanar a literatura. Aprende-se tal lição com o poeta
- Sérgio Vaz, criador da Cooperifa, o maior sarau de poesias do país. Os livros precisam deixar de
- ser sagrados e virar matérias das ruas, tocados por muitas mãos, marcados por lágrimas, suor e
- gordura. Antes de iniciar a leitura, é preciso apalpar, cheirar, bolinar o objeto que contém a história
- – ainda que isso seja feito virtualmente. É importante perder o medo dos livros, um excessivo
- respeito. Incinerar para todo o sempre a ideia de que a literatura é território restrito dos que
- supostamente sabem mais e torná-la matéria permanente das nossas vidas. Espécie de feijão e
- arroz da alma.
- Leia por prazer, por temor, por coragem e por inocência, fingindo desconhecer que não será o
- mesmo depois do ponto final. Vá à livraria ou à biblioteca como se fosse a uma festa e veja com
- quem tem afinidade, quem lhe sorri, mostra a língua ou um naco da coxa. O melhor da literatura
- é que ela não nos dá nenhuma resposta. Nos dá algo muito melhor: novas perguntas.
Texto especialmente adaptado para esta prova. Disponível em http://desacontecimentos.com/?p=301.